A Dama de Vermelho

Postado em 23/09/2013 por Ricardo Brusch

 
    Era uma noite quieta e fria de agosto. Paulo, Henrique e Renato, três jovens à procura de emoções, resolveram se divertir um pouco invadindo o cemitério municipal, só pra dar algumas boas risadas sobre os túmulos. Esperaram uma pequena distração do guarda no portão de entrada principal e sorrateiramente se infiltraram na solidão e escuridão que só era quebrada pelo pouco reflexo que a lua cheia causava em algumas lápides. Do meio da penumbra conseguiam avistar a entrada e também o segurança, pois o poste de luz da calçada iluminava-os bem. Às vezes algum dos jovens dava uma rápida espiada para garantir que o segurança ainda estava lá parado, apenas para evitar surpresas desagradáveis.

 
    Aproveitando a privacidade proporcionada pela escuridão em que estavam, pulavam entre os túmulos e riam de alguns nomes engraçados que liam com dificuldade por ali, como “Sebastião das Neves”, 1925-2011, ou “Genoveva”, cujo sobrenome não era possível ler por estar apagado pelo desgaste do tempo, que nascera em 1902 e morrera sabe-se lá quando. O vento uivava alto e o frio não dava trégua, o que tornava o clima ali bem tenso. E para ficar um pouco mais tenebroso, em uma das espiadas que Paulo deu para a entrada, avistou com alguma dificuldade uma mulher de vermelho entrando pelo portão principal. A distância o impedia de observar detalhes, mas percebeu que ela caminhava na direção em que eles estavam. Resolveram, por garantia (e também por medo, mas nenhum deles confessou isto), se esconder atrás de duas lápides que estavam próximas, e apenas observar.

 
    A dama de vermelho foi se aproximando lentamente, como se flutuasse sobre a leve névoa que o frio fazia levantar do solo. Em meio aquela escuridão, só conseguiam reparar em seu grande chapéu também vermelho que com um véu cobria seu rosto, e o buque de lindas rosas que ela trazia na mão. A dama então parou à uns 5 ou 10 metros de distância deles (era difícil dar precisão no meio das trevas em que estavam) e ajoelhou-se. Sob o silêncio do cemitério, mesmo atrapalhados pelo barulho do vento, conseguiram escutar a dama de vermelho iniciar uma oração, pedindo paz pela alma de seu falecido esposo. Cochicharam entre si, questionando-se se aquela não era a famosa aparição da dama de vermelho que ouviram desde sempre nos contos de terror que contavam-se nas rodas de amigos, e antes que pudessem refletir sobre a hipótese, ouviram uma voz dizer-lhes:

 
    - Aproximem-se garotos, eu sei que estão à me observar…

 
    Nada, absolutamente nada no mundo poderia ser tão assustador para os três jovens quanto aquilo. Uma voz quase tão fria quanto a noite lhes direcionava a palavra, e mesmo sem combinar nada o silêncio entre os três se manteve. Nenhuma deles arriscou dar um pio sequer.

 
    - Vamos meninos, se aproximem ou irei até vocês.

 
    Uma corrente de frio gelou a espinha dos três, simultaneamante. Vendo que não tinham opção, e observando que aquela mulher de vermelho tinha acabado de virar o rosto exatamente na direção deles, como se conseguisse os enxergar na escuridão, decidiram caminhar lentamente em direção à ela. Não se aproximaram muito, apenas o suficiente para conseguir ver os olhos e a expressão da mulher sob o véu que refletia, assim como as lápides, a luz da lua.

 
    - Você é a Viúva de Vermelho? – questionou Paulo, mas sua voz mal saia da garganta.

 
    - Pode-se dizer que sim. – a resposta seca como já esperavam.

 
    - E você é uma assombração? – desta vez a pergunta partiu de Renato.

 
    - Eu apenas não pertenço ao mundo de vocês…

 
    - Podemos ir embora então? Você não vai mais nos assustar?? – Henrique se manifestou, ainda congelado de medo.

 
    - Podem sim, e não se preocupem, vim apenas deixar estas rosas para meu marido, Haroldo. Sigam o caminho de vocês, sem olhar para trás, e eu sigo o meu.

 
    Ouvindo isso, os três se puseram a correr cemitério adentro, cambaleando apavorados, enquanto à dama de vermelho começou a caminhar em direção ao portão de entrada. Ouviu então, de longe, a voz que reconheceu ser de Renato rezando um fervoroso “Pai Nosso”. Ouviu também Henrique dizer repetidamente com voz embargada num choro pesado “- Descanse em paz, alma! – Descanse em paz, alma!”. Pensou por um momento então que deveria ter falado a verdade à eles. Como uma médium, ela não poderia deixar 3 jovens espíritos vagando sem nenhum esclarecimento, mas talvez não fosse a hora de descobrirem que estavam mortos. E como última atitude, antes de sair do cemitério, virou-se para seu interior e disse mentalmente:

 
    - Descanse em paz você também, Henrique. E leve seus amigos com você.

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