A Presença

Postado em 04/06/2013 por Ricardo Brusch

 

    Tudo começou quando eu estava no sexto mês de minha gravidez. Em momento algum da minha vida tive problemas parecidos, muito menos histórico de algo assim na minha família. Só sei que acordei com a sensação de ter sido invadida. Tinha algo dentro da minha mente que não sabia o que era, mas me fazia mal. Eu sentia aquilo andar pelos caminhos do meu cérebro, e sussurrar coisas só para mim. No começo achei que poderia ser algo relacionado ao stress que uma gestação causa nas mulheres, ou até mesmo que naquela manhã eu teria simplesmente acordado meio estranha… mas não…

    Passou-se um mês e aquilo ainda estava lá, latejando em minha mente. Desejava estar o tempo todo dormindo, só para não ter que ouvir aquela voz… No oitavo mês quase perdi minha menina, pois tive colapsos nervosos diante da manifestação “daquilo”. Fiquei internada no hospital por duas semanas, em observação, e nada foi constatado. Mas mesmo lá, sob o monitoramento dos aparelhos e câmeras, que nada registravam, eu a ouvia.. e começava a senti-la também. Não apenas senti-la em minha mente, mas no plano físico. E foi no momento do parto, que achei estar realmente louca. Eu a vi. Uma menina/mulher, não sei defini-la, de cabelas longos e negros, rosto pálido e lábios vermelho-sangue. Roupa esfarrapada, como uma moradora de rua. Suja. Encardida. O odor de podridão tomou conta da sala de parto. Eu gritava para meu ex-marido, que naquele momento estava com a câmera na mão filmando tudo, para capturá-la na tela. Não era possível que ele não à visse, pois ela estava nas costas dele, respirando em sua nuca, quase entrelaçando aqueles braços podres pelo seu tronco. Ele me afirmou que nunca iria assistir aquela gravação novamente, pois ele dizia “estar assustado com tudo que eu falava”. E não era para menos, eu assisti a gravação a pouco tempo atrás, e minha expressão era de pânico. A dor de estar sendo cortada de uma ponta a outra na barriga não me passava na cabeça, muito menos a emoção de poder ver minha filha pela primeira vez. Apenas aquele horror. Desmaiei pouco antes do médico me dar a notícia do nascimento de minha filha.

    Após aquilo, a primeira coisa que lembro é estar no quarto de minha casa, dois dias após receber alta. Do lado direito de minha cama estava o berço de minha querida, com mosqueteiro rosa e lençóis da mesma cor. Não me lembro de ter visto meu marido, muito menos a minha filha. Achei estranho tudo aquilo e decidi levantar-me para verificar. Com os pontos ainda em fase de cicatrização, levantei devagar e me dirigi a cozinha. Lá estava ela. Aquela desgraçada me encarava de maneira assustadora, com uma espécie de sorriso no rosto. Um sorriso um tanto quanto irônico, sem a naturalidade de um sorriso de verdade. Quando eu a vi, minha primeira reação foi agarrar uma faca que estava sobre a mesa. A faca não era muito grande, nem muito afiada, mas era o suficiente para me defender. No momento que aquela coisa viu a faca em minha mão, meu Deus, eu fico aterrorizada só de lembrar… Ela virou-se de costas para mim e se jogou para trás, encostando as mãos no chão, deixando a barriga exposta para cima, e sangue começou a verter de suas entranhas… enquanto o sangue escorria pelas suas pernas, ela começou a andar, do jeito que estava, em formato de arco, na minha direção. Sua boca estava muito aberta, e ela gritava num tom que achei que fosse ensurdecer. Estava paralisada de medo, e na medida que ela se aproximava de mim eu sentia um líquido quente escorrer pelas minhas pernas também. Era mijo. Estava me mijando de medo, apavorada pelo formato que aquela coisa tinha tomado, e aterrorizada com o jeito que ela gritava. Ela desviou de mim e entrou em meu quarto. Não era possível. Aquela infeliz estava ferrando com minha cabeça, com minha casa, comigo! Eu tinha que dar um jeito naquilo. Se ninguém mais a via, pelo menos EU a via, e por isso só eu podia fazer alguma coisa…

    Retomei minha consciência, recuperei meus movimentos e mesmo estando toda molhada e fedendo a mijo, entrei em meu quarto procurando a infeliz. Desta vez ela estava sobre minha cama, manchando os lençóis brancos com aquele sangue podre e fedorento dela. Senti nojo e ódio ao mesmo tempo, e independente do quanto aquela presença me assustava, parti para cima dela. Ainda em formato de arco ela desceu da minha cama, parecendo uma aranha com quatro patas. Sua cabeça girava, involuntariamente, sobre o eixo do pescoço, sendo que este NÃO acompanhava os movimentos da cabeça. Era extremamente bizarro e pavoroso assistir àquilo. Mas não me intimidei. Tentei me aproximar mais uma vez sobre aquela coisa podre, e ela, encurralada, escalou e entrou no berço de minha filha. Foi a gota d”água. Nada poderia ter me deixado mais furiosa. Aquela merda, por mais horrível que fosse, não tinha o direito de estar ali. Fui com tudo para cima da infeliz. Ela se encolheu, contraindo os músculos das pernas e dos braços, se fechando de um modo que parecia não ter ossos, mas ainda com barriga para cima, e a cabeça virada para mim, olho no olho. Dentro daqueles olhos só via a escuridão, e tive a certeza que aquilo não tinha alma. Peguei a faca e enfiei nela, não sei aonde, pois enfiei diversas vezes em diversos locais diferentes. Inclusive na cara. A maldita sangrou pelos olhos e pela boca, e por todos os buracos que eu tinha feito nela enquanto gritava e se afogava no próprio sangue. As pernas, mesmo encolhidas, ainda tentavam me chutar, me tirar de cima dela, mas minha fúria era mais forte que tudo aquilo. Mais forte que aquela presença maligna na minha casa. Esfaqueei a vagabunda mais algumas vezes, rindo e sentindo prazer em ver aquela desgraçada sentir dor. Quando finalmente ela parou de se mexer, eu me senti aliviada. Sentei na minha cama, que estava tão suja de sangue quanto eu, e relaxei a tensão dos meus músculos. Mas e agora, o que fazer? Assim como só eu a via, será que também só eu veria a sujeira que tinha causado? O mijo em meu pijama era real, tinha certeza disto, mas e aquele sangue todo esparramado pelo quarto e pela cozinha? De um jeito ou de outro, cheguei a conclusão que era necessário limpar aquilo tudo.

    Teria de ir até a lavanderia e pegar baldes com água e desinfetante, pois aquele cheiro era terrível. Mas para isso teria que passar pela cozinha. E gostaria de não tê-lo feito. Levantei e fui em busca dos baldes, mas ao chegar na cozinha a tremedeira tomou conta de minhas pernas úmidas. Não havia uma gota de sangue sequer pelo chão, nem sinal daquela manifestação maligna que ocorrera à 10 minutos atrás. A faca porém, não estava mesmo sobre a mesa, estava em minhas mãos. Olhei para os lados e reparei que tudo o mais estava como antes, com exceção de um papel preso com um ímã na porta da geladeira. Era a letra do meu ex-marido. O bilhete dizia o seguinte:

    ”No caso de você acordar: meu amor, fui na padaria e em 15 minutos no máximo estou de volta. A bebê ficou dormindo, como um anjinho, no bercinho dela. Amo você!”.

    Quando terminei de ler isto senti a presença atrás de mim, suspirando e rindo bem baixinho nas minhas costas, na minha nuca, na minha mente. Ao mesmo tempo meu ex-marido abre a porta de casa, com um saquinho de pão, o mesmo que ele derruba no chão quando percebe que estou coberta de sangue, com a faca de cortar carne na mão direita, olhando para o nada e rindo de forma diabólica.

    Já faz um ano que tudo isso aconteceu. Ele pediu separação após o ocorrido, e eu fui a julgamento por ter matado minha própria filha com dois dias de vida. Fui declarada louca e incapaz de responder por meus atos. Estou pagando minha pena em prisão psiquiátrica, sob constante monitoramento e abaixo de remédios de todos os tipos. Eles dizem que eu vou ficar melhor, mas não acredito mais nisso. Sei que o que vi foi real, pois vejo até hoje aquela desgraçada no rosto de cada enfermeiro ou médico que entra em meu quarto. Ainda a sinto quando estou sozinha, e as vezes consigo até conversar com ela. Perguntei o por quê disto tudo ter acontecido e ela simplesmente me responde: “O mal não precisa de motivos para aparecer, e também não precisa de motivos para ir embora. Meu prazer é o seu sofrimento, e enquanto você sofrer, vai me sentir, me ouvir, me ver… e fazer tudo o que eu quiser que você faça…”

    Ricardo Brusch de Almeida

    Porto Alegre/RS

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