A Viúva

Postado em 04/06/2013 por Ricardo Brusch

Organizar as roupas do falecido marido não era a coisa mais agradável de se fazer. Marta sabia muito bem disto, mas não tinha outra escolha. Fazia uma semana que Rogério havia falecido, e apenas à três dias atrás fora velado seu corpo. “Há burocracia demais até para aqueles que não pertencem mais a este mundo”, pensava Marta, que dobrava de qualquer jeito uma camisa de algodão branca recém tirada do roupeiro para colocá-la na mala, junto com tantas outras camisas mal dobradas. A tristeza assolava o coração da viúva, uma vez que fora casada com Rogério por longos 8 anos. Ainda jovem (com seus 15 anos) o conhecera, começaram a namorar e em três anos, assim que fizera seus 18, estavam casando. Ele era quatro anos mais velho que ela, e falecera no auge de seus 30 anos. Um jovem ainda, que na visão de Marta ainda tinha muito à viver, mas não era isso que Deus desejava. Como pode um homem, saudável do jeito que era, e com uma vida inteira pela frente, morrer de um infarto, sentado à mesa do trabalho? Rogério era muito trabalhador, ninguém duvidava disto, trabalhava de segunda à segunda por meses seguidos se necessário. Ele sempre dizia que “Sem trabalho não há sucesso, portanto, Marta, não me espere para jantar… Ou melhor, não se preocupe em me esperar acordada, pois não sei que horas chegarei esta noite…”. Sem ter argumentos, Marta sempre concordava, sabendo que provavelmente só veria seu marido na próxima noite, se ele chegasse cedo, é claro. E mesmo assim, mesmo sabendo que ele não era tão presente em sua vida como ela desejava, ela o amava. E sentia muito sua falta agora. A cada roupa tirada do roupeiro, uma lágrima lhe escorria pelo rosto, pingando no chão, ou às vezes sobre seus pés, mas sempre antes escorrendo pelo belo e jovem rosto de Marta.

As dores de cabeça aumentavam dia após dia. Antes de Rogério sofrer o infarto elas eram regulares, porém fracas. Após isto, elas intensificaram em força e frequência. Marta havia sofrido um choque tão forte ao receber a notícia através de uma ligação do escritório de contabilidade que Rogério era dono que atribuía a isto o desequilíbrio e desconforto em seu organismo. Sua úlcera parecia alterada. Seus pulmões pareciam com dificuldades em trabalhar, e sua cabeça doía mais intensamente que antes. Se perguntava se todas as viúvas passavam por isso, ou seria apenas aquelas que amavam demais seus falecidos maridos. E quanto à uma mãe que perde um filho? Ela não conseguia imaginar a dor que deveria ser. Pensava em se desfazer das roupas o mais rápido possível, pois toda lembrança vinda dele a fazia sofrer, e Marta não queria mais isto. Queria apenas seguir com sua vida, na medida do possível, tentar reencontrar a felicidade, por mais distante e escondida que ela parecesse estar.

A mala estava quase cheia, mas o roupeiro não estava nem perto de ficar vazio. Rogério, muito vaidoso, se recusava a repetir uma única camisa o mês todo, fazendo do seu guarda-roupas um festival de cores e modelos. Ainda bem que haviam mais duas malas guardadas, e Marta imaginava que usaria ambas. Após encher a primeira mala, e antes que pudesse pegar a segunda, a campainha tocou. Marta olhou em seu relógio de parede. Dezesseis horas… Quem iria estar à sua porta, sem avisar que viria, às quatro da tarde de uma segunda-feira? Provavelmente alguém que não sabia de sua situação atual, ou simplesmente não tinha educação o suficiente para se importar. De uma forma ou de outra, ela foi atender.
Uma mulher alta, cabelos claros como os raios do sol e corpo bem definido, apesar de uma leve saliência na barriga, estava parada à sua porta, acompanhada de um homem de terno e gravata, aparentemente fraco, desengonçado, porém aparentando ser extremamente inteligente. O vento batia levemente nos cabelos daquela mulher, ao mesmo tempo que seu vestido balançava, tornando-a um tanto quanto sensual. O homem por sua vez parecia completamente desinteressado na moça, e que estava ali apenas acompanhando-a, sem ter nenhuma relação com ela. A primeira (e única) coisa que saiu da boca de Marta foi:
- Quem é você? – o espanto ficou claro nos olhos de Marta, e a loira, percebendo isto, foi logo se explicando:

-Sou Laura, prazer.. Você deve ser Marta, certo? – estendeu a mão em direção à Marta, para cumprimentá-la e não sendo correspondida, continuou – Este é meu advogado, Marcos. Viemos para a reunião. – O homem ao seu lado assentiu com a cabeça, confirmando todo o diálogo da moça.
Marta não sabia o que falar, menos ainda o que fazer. Será que a loira havia se enganado? Aquilo ali não era um escritório para ter reunião… Mas ela sabia seu nome. Ela sabia. Como ela sabia? Porque ela estava ali? Quem era aquele cara com ela? Aquele cara que de alguma maneira passava um desconforto terrível para Marta. Mil e uma perguntas passavam ao mesmo tempo por sua cabeça.
– Não… digo, sim. Sou Marta. Mas como você me conhece?
– Na verdade – disse a loira, parecendo constrangida – não lhe conheço. Apenas ouvia falar de você. Eu não sei como lhe dizer isto mas… – gaguejou um pouco – … eu vim aqui por causa disto…
Disse isto retirando da bolsa um envelope com carimbo do escritório Prado, do famoso advogado Sílvio Prado, que inclusive era o advogado de seu falecido marido a mais de cinco anos. “Hmm, temos o mesmo advogado, então provavelmente é daí que ela conhece meu nome.” – pensou Marta, pegando o envelope e retirando o papel timbrado que havia lá dentro. No papel havia o seguinte texto, escrito a mão e assinado embaixo pelo próprio Sílvio:

“ Querida Laura,
Faz-se a vontade do falecido Rogério. Peço que compareça segunda-feira à tarde, por volta das 16 horas, na casa pertencente ao falecido, para que façamos a leitura do testamento. Não se preocupe em levar seu advogado, pois sou o total responsável deste caso, conforme solicitado em vida pelo próprio Sr. Rogério.
Grato pela atenção….
Sílvio Prado

Marta não entendeu nada. Como assim testamento? Era a única herdeira dos bens do falecido, já que não tinham filhos, portanto não havia necessidade de Rogério fazer um testamento. E mesmo que o tenha feito, quem era a tal de “Laura” para ser necessária a sua presença na leitura do mesmo?
– Desculpe… Acho que não tenho mais como esconder. – A loira falava enquanto observava uma mistura de confusão e tristeza nos olhos de Marta – Seu marido e eu… bem… nós tínhamos um caso. A nossa relação já vinha de uns 2 anos… Ele sempre me encontrava nos finais de semana, às vezes à noite, sempre depois de sair do escritório. Me trouxe aqui algumas vezes, obviamente quando você estava na casa de sua mãe ou qualquer coisa assim. Por isso sabia como chegar. E isto, – disse ela segurando a saliência que brotava de seu vestido na altura da barriga – é o fruto do nosso amor. Acredito que ele tenha me incluído no testamento quando soube que estava grávida dele. Esta semana estou completando 4 meses. Mas não se preocupe, se você quiser podemos fazer alguns exames para comprovar a paternidade.

Uma tijolada na cabeça. Era esta a sensação que Marta tinha neste momento. O mundo rompeu sobre seus pés, e ela não sabia se tentava se segurar ou se simplesmente se jogava rumo ao centro da Terra, desejando nunca ter nascido. A confusão estava ainda maior em seus olhos, mas a tristeza dava lugar a fúria de uma mulher que se entregara completamente a um homem e descobrira que este mesmo homem, o único em sua vida, acabara de lhe apunhalar o coração, mesmo depois de morto. Não tinha reação. Apenas dor. Dor no peito, na alma… e na cabeça. Por um momento ela ficou fora de si. A dor foi tão aguda que Marta cambaleou para trás, sendo rapidamente acudida por Marcos, o homem que lhe causava mal estar. Mas por um breve momento não foi Marcos quem ela viu se aproximando, mas sim um homem de mesma estatura, cabelos curto e grisalhos, vestido inteiramente de branco, com uma possível mancha vermelha na altura do coração. A mancha lembrava sangue, mas estava tudo confuso e embaçado demais para que ela conseguisse se apegar a este detalhe. Quando Marta retomou a consciência, o que parecia ter sido minutos observando o homem de branco se revelava apenas cinco segundos, exatamente o tempo da loira parar de falar, ela balançar sobre as pernas bambas para trás e Marcos pular em sua direção, segurando-lhe pelos braços e evitando sua queda.
– Sra. Marta, – adiantou-se Marcos – peço que a senhora deixe-nos entrar, para que aguardemos o Dr. Sílvio para dar início a reunião. E a senhora precisa se sentar, pois está com uma aparência terrivelmente branca, como se tivesse visto um fantasma. Sei que a notícia que recebestes agora não foi a mais agradável, mas peço que se acalme para que possamos tomar as decisões corretas neste caso.
Marta concordou com um breve aceno de cabeça, e nos braços de Marcos foi conduzida até o sofá de sua sala, onde sentou e tentou relaxar um pouco. Marcos se sentou ao seu lado, enquanto a loira rodava pela sala, observando os porta-retratos de momentos “felizes” da vida do casal. Laura chegou a pensar em comentar algo do tipo “Rogério também me levou neste restaurante uma noite”, mas percebeu que o comentário não iria ser aprovado por Marcos, muito menos aceito por Marta. Decidiu então ficar quieta, sentando-se na poltrona que outrora servia ao descanso de Rogério.

Já se passavam 25 minutos desde a chegada dos dois à casa de Marta, e Sílvio ainda não tinha aparecido. Um advogado renomado como ele não deveria se atrasar, nem mesmo para um compromisso onde não iria lidar com pessoas de classe A ou B, como ele estava acostumado. Na sala o silêncio predominava, pois ninguém ousava falar uma palavra sequer. Marcos não tinha o que falar, sabendo que pela vontade do falecido ele nem deveria estar ali. Laura também não tinha o que falar, já que sabia que não era bem-vinda àquela casa, pelo menos não por Marta, que por sua vez não falava nada, mesmo com a vontade imensa de falar muita coisa. Tinha vontade de gritar e se possível avançar no pescoço bronzeado da “loira falsa”, como ela imaginava ser. Mas não tinha coragem. O melhor era ficar ali, sentada, esperando o Dr. Prado. Ele sim iria guiar a reunião da maneira mais conveniente e ao final dela iria dar bons conselhos a Marta.
Mais 15 minutos se passaram, quando Marta rompeu o profundo silêncio.
- Vou tomar um copo de água. O senhor aceita? – disse já se levantando e olhando para Marcos. Marta não o chamou pelo nome porquê realmente não se lembrava, mas fez questão de deixar bem claro que se dirigia a ele, e apenas ele. A loira que morresse de sede se fosse necessário.
– Obrigado, Marta, mas estou bem. – respondeu, com a voz um pouco rouca devido ao longo tempo de inatividade de suas cordas vocais.
Marta então passou pela frente de Marcos, sendo obrigada a passar ao lado da poltrona que Laura estava. A loira nem sequer olhou para o lado, preferiu manter seu olhar fixo à janela que se encontrava do outro lado da sala. Marta então continuo seu caminho rumo a cozinha, de onde espiou e viu apenas a nuca de Laura, coberta pelos longos cabelos oxigenados. Naquele momento ela sentiu a fúria e a raiva tomar conta da sua alma. Quando Rogério estava em casa, ele se sentava exatamente naquele lugar ocupado pela vagabunda de cabelo amarelo, e ela com certeza sabia disto, e ainda fez questão de sentar-se ali. A pouco tempo atrás eram cabelos escuros e perfeitamente penteados que Marta via quando estava na cozinha, mas hoje não. Hoje eram os longos cabelos da Bela Adormecida… “Bela Adormecida…. A personagem, coitada, não tem nada a ver com a vagabunda que está sentada lá na sala, não sei por qual motivo associei uma a outra” – pensou Marta, quando de repente sentiu a coragem que lhe faltara a pouco tempo atrás. Ao lado da geladeira, Rogério sempre deixava seu bastão de Beisebol, esporte que nunca praticou, mas sempre admirou. Aquele bastão tinha sido um presente de aniversário de um amigo, à dois ou três anos atrás, mas sempre ficara na cozinha, naquele mesmo lugar. O motivo? Rogério falava que a cozinha era um ponto estratégico. O centro da casa. Em qualquer situação que ele necessitasse daquele taco para sua defesa (sabe-se lá do que, pensava Marta), ali era o ponto mais acessível para ele, independente da peça que se encontrasse. Rogério nunca o usou, mas Marta iria usar. Uma cacetada só na cabeça da infeliz e ela nunca mais ia se meter com o marido de outras. O Dr. Sílvio já se atrasara quase uma hora, talvez nem viesse mais. O advogado de Laura não parecia ser uma ameaça. Então estava decidido. Marta pegou o bastão com as duas mãos, e rumou em direção à sala.
Marcos estava distraído e não percebeu a entrada de Marta no recinto. Laura, que estava de costas para a cozinha, muito menos. A viúva foi cautelosa, evitando fazer barulhos demasiados para não chamar a atenção. Só quando estava muito próxima de Laura que Marcos à percebeu, e o susto de vê-la com o bastão na mão impediu que fizesse algo a mais além de gritar:
- LAURA! CUIDAD..! – o som de seu grito foi interrompido pelo baque surdo do bastão na parte lateral da cabeça de Laura, que desmaiou na hora, seu corpo pendendo para a esquerda. Marta não sabia da real força que tinha até aquele momento. Sua dor de cabeça parecia ter sumido por uns instantes, aqueles breves instantes em que a satisfação tomara conta do corpo e da alma. O bastão de cor madeira agora estava manchado de vermelho – sangue de vaca – enquanto ainda vibrava do golpe desferido. Marcos, mais uma vez, não sabia o que fazer, e quando tentou escapar pelo lado da poltrona onde Laura estava desmaiada, Marta bloqueou seu caminho. No rosto dela havia a expressão de uma pessoa decepcionada, raivosa e com sede de vingança. De sua boca saíram as seguintes palavras:
- Meu marido não o queria aqui. A vaca não sabia ler??
- Sabia sim, Marta, acalme-se por favor. Ela me pediu que viesse acompanhando-a simplesmente para se sentir mais segura. Ela não sabia qual seria sua reação ao saber que ela era aman…
- CALA A BOCA! Não ouse falar isto novamente! Se ela tinha medo, ela estava certa! Me entreguei aquele homem, e tenho certeza que não foi ele quem procurou essa vadia. Ela o seduziu! Ela o fez querer trair a mim.
- Marta, não sei lhe dizer nada a respeito dos dois… Por favor, abaixe esse bastão. Vamos conversar! Vamos chamar uma ambulância para atender a Laura…
- NÃO! NÃO VAI FAZER PORRA NENHUMA – Marta desabafou, não lembrava a última vez que tinha dito um palavrão. – Me dê seu celular. Agora!
Sem opção, Marcos entregou seu iPhone para Marta, que por sua vez o jogou no chão e bateu com a ponta do bastão sobre ele duas vezes, forçando-lhe a partir no meio.
- Chega! Ninguém sai desta casa até eu mandar. Vem, vou te levar até a cozinha e te trancar lá até eu terminar minha conversinha com essa vagabunda, se ela acordar é claro…
Mais uma vez sem opção, Marcos concordou apenas com a cabeça, sabendo que qualquer outro movimento um pouco menos sutil poderia resultar em uma mulher furiosa caindo com um taco de beisebol sobre ele. Então fez o que ela mandou. Se encaminhou para a cozinha, com Marta logo atrás dele, ele sentindo uma respiração ofegante em suas costas. Quando entrou na cozinha, Marta ordenou que ele se virasse lentamente. Ao fazer isso, e logo que ficou de frente para Marta, ele à viu com o taco para cima, em posição de ataque. Ouviu-a apenas dizer “Boa noite, garoto…” e após isso tudo escureceu. Também desmaiou devido a força do golpe em sua cabeça. E mesmo caído, sem consciência alguma, ainda foi alvo de mais duas tacadas, uma na barriga e outra no meio do rosto, quebrando-lhe dois dentes. Quando ( e se ) acordasse, teria uma bela surpresa ao tentar sorrir, se ainda lhe restasse algum motivo.

Marta voltou para a sala, onde estava a também inconsciente Laura. Deu-lhe uma tacada proposital nos seios e em seguida uma sobre a barriga. Se sua intenção era machucar a criança, fruto do amor proibido entre seu marido e a loira, ela provavelmente tinha conseguido.

Aproximadamente uma hora depois, tudo estava conforme Marta queria. Não planejou nada, simplesmente agiu. O advogado estava preso no porão. Ele fora arrastado escadaria abaixo, batendo a cabeça em cada um dos mais de 12 degraus que levavam ao sub-solo. Lá em baixo Marta ouviu algo que a fez tremer dos pés a cabeça. Enquanto ajeitava o corpo (ainda com vida, porém totalmente sem consciência) de Marcos em um canto, sentiu como se alguém respirasse lá dentro. Uma respiração fraca, silenciosa, porém suficientemente profunda em um nível que os tímpanos de Marta captaram. Ouvia o som fino que faz o ar quando bate nos pelos que protegem as narinas, mas esse som não vinha de suas narinas. Sentia em sua pele a presença de alguém (ou de algo) mas não sabia identificar se era realidade ou se estava imaginando tudo aquilo. A parte do porão onde ela se localizava estava clara, mas havia boa porção da peça mergulhada na escuridão profunda. Ela não acendera luz alguma na descida, já que estava preocupada demais em puxar o pesado corpo para baixo, e a única luz que a iluminava era a que vinha pela escada através da porta, de outro cômodo da casa, cerca de 3 metros acima dela. Quando Marta percebeu a situação em que se encontrava, sua dor de cabeça intensificou-se novamente. Ela parou por alguns segundos, ficando totalmente imóvel, acreditando ser o necessário para aliviar a dor, mas estava enganada. Ela se viu então em um outro lugar, não mais o porão. Não sabia definir onde era, pois novamente estava tudo embaçado e escuro, mas via à menos de dois metros dela um móvel pequeno, com duas prateleiras. Na primeira ela avistou uma roupa, uma jaqueta talvez, de cor cinza, dobrada sobre a madeira. Na segunda prateleira ela viu um aparelho de telefone e um celular. O telefone estava fora do gancho, e era possível escutar o seu peculiar “Tu-Tu-Tu”, como quando se faz uma chamada e a pessoa do outro lado da linha desliga. O celular parecia estar desligado, mas ela não conseguiu focar nele. Era tudo um sonho, mas era tudo real. Ela não sabia dizer onde estava, só tinha a certeza de não estar mais em seu porão. E essa certeza foi embora rapidamente, quando entre uma piscada de olhos e outra, tudo estava de volta lá. O porão voltara a ser o porão, e o som quase mudo da respiração que ela ouvia/sentia ainda à assustava. Rapidamente então ela terminou de ajeitar o corpo de Marcos naquele canto e subiu as escadas o mais depressa que suas pernas deixaram.
Laura, por sua vez, se encontrava amarrada em uma cadeira. Não simplesmente amarrada, mas muito bem amarrada. Seus braços foram unidos para trás, abraçando as costas da cadeira, e amarrados com nós que pareciam de escoteiro. As pernas foram amarradas uma em cada pé da cadeira, deixando-a com as coxas levemente afastadas. No pescoço havia uma terceira corda, que passava por trás da cabeça, se enrolava nos nós feitos sobre os pulsos, e prosseguia por baixo da cadeira até se dividir em duas e serem amarradas uma em cada perna. Se Laura conseguisse se livrar de qualquer um dos nós, ou mexesse qualquer um de seus membros, a terceira corda à enforcaria facilmente. Nem mesmo Marta sabia como havia feito aquilo, mas sabia que havia feito direito. A cadeira estava no meio da sala, com todos os móveis arrastados para os cantos da peça. As janelas estavam todas fechadas. O ambiente era iluminado inteiramente por luzes artificiais, apesar do sol ainda não ter se posto no horizonte, do lado de fora da casa. Agora eram só Laura e ela.

Marta, com a roupa um pouco manchada de sangue, se aproximou de Laura e deu-lhe umas batidinhas leves no rosto, o suficiente para trazer a loira de volta à realidade, à consciência.
- Então, Dona Laura, você anda roubando o marido das outras, né? – questionou a viúva enquanto olhava fixamente para os olhos recém-abertos da loira.
- Não, por favor, me solte!!!! – pediu Laura, um pedido em tom de súplica. Agora quem estava com expressão de confusão no rosto era ela mesma… – Eu não fiz nada. Nos conhecemos e começamos a sair, ele só me disse que era casado depois de um bom tempo. – e enquanto falava, um filete de sangue corria pela lateral de sua cabeça.
-Não quero saber. Mesmo depois de você “descobrir” que ele era casado, você continuo o encontrando… Você é uma vaca! E sabe o que acontece com as vacas?
Laura não sabia o que responder… Seu silêncio era tudo que podia oferecer naquele momento. E suas orações à qualquer Deus que pudesse ajudá-la. Ela não queria morrer nas mãos de uma viúva chifruda como aquela. E por um momento, ela teve a impressão que Marta tinha lido seus pensamentos. Questionou-se se de repente ela mesma não tinha deixado escapar a palavra “chifruda” inconscientemente da boca, porque a expressão de Marta mudou. Se já era de poucos amigos antes, agora estava pior. E nisso, Marta sumiu. Ela acompanhou os passos de Marta o máximo que pode, no limite que as cordas deixavam, mas acabou não conseguindo ver para onde Marta tinha ido. Começou a rezar, rezar fervorosamente, rezar de uma maneira que não rezava desde seus 12 ou 13 anos, à um bom tempo atrás. E menos de um minuto depois, Marta volta. Desta vez, escondendo algo nas costas.

- O que você tem aí? – questionou Laura.
- Algo que toda vaca tem medo…. – e isso saiu em tom de piada. – Já ouviu falar em churrasco? Pois é, – o tom de voz foi mudando de raivoso para tranquilo e levemente cômico – as vacas, depois de algum tempo de vida, acabam sendo abatidas para virar churrasco. Eu nem gosto muito de carne de vaca, mas acho que posso fazer uns bifes desta que está na minha frente agora. – Ao terminar a frase, a mão que estava escondida atrás de si foi ficando visível, e junto com ela uma faca enorme, com lâmina de aço que brilhava e refletia a imagem de duas mulheres nela: Uma apavorada e outra serenamente calma. Marta então foi aproximando a faca de Laura, e de leve, raspou-lhe alguns pelinhos loiros do braço… Laura implorava por piedade. Mal sabia ela que aquela agonia e desespero que demonstrava era combustível para Marta. Os pelinhos caíram no chão, e Marta podia jurar que ouviu-os batendo contra o piso. Estava com seus sentidos aguçados, apesar da cabeça ainda lhe incomodar. Laura mais uma vez suplicou para que parasse, mas Marta não ouvia mais nada.

A faca entrou fácil na carne macia do bíceps de Laura. Saiu mais fácil ainda, e a mancha de sangue na lâmina apontava que a faca tinha entrado uns 5 centímetros. Laura era uma mistura de choro, lágrimas, gritos e urros de dor. A pancada na cabeça e o corpo amarrado já lhe deixara desesperada, agora uma facada no braço. O que mais estaria por vir?
Marta não se limitou a isto. Quanto mais Laura gritava, mais a cabeça de Marta doía e mais sua fúria aumenta. A faca desta vez voou em direção a coxa, cravando e atravessando boa parte do fêmur. O reflexo e a dor fizeram com que Laura pulasse e se contorcesse na cadeira, apertando as cordas ainda mais e a sufocando de maneira agoniante. Ela se engasgou na própria saliva. Estava com falta de ar, um braço e uma perna furada, dores na barriga (“que Deus proteja minha criança”) e a cabeça latejando, vertendo sangue, gota após gota. Era seu fim, e ela sentia isso, só pedia que fosse rápido. Marta porém, não queria que fosse o fim. Desejava do fundo do seu coração – se pode-se chamar de coração – que fosse apenas o começo.

Enquanto Laura soluçava de dor e medo, Marta procurava por alguma coisa. E foi na cômoda ao lado direito da janela que a pouco Laura olhava tranquilamente para a rua que ela encontrou. Laura nem percebeu quando Marta chegou a sua frente com três ferramentas na mão (a faca ainda estava cravada na coxa da loira).
- Olha aqui, sua vaca… Você não pode ficar se balançando muito, porque se você se sufocar, não vou poder me divertir. Aguenta aí que eu vou resolver esse problema para nós.
Laura não viu, mas sentiu uma dor enorme quando Marta se abaixou e cravou, usando o martelo, uma chave de fenda no seu pé esquerdo. A ferramenta atravessou o pé da loira e se enterrou no piso, tornando impossível o movimento de qualquer forma daquele membro. A corda já prendia muito bem sua perna, e agora uma chave de fenda prendia seu pé. Pelo menos o pé direito ainda estava livr…
-AHHHHHH SUA VAGABUNDA!!!! – berrou Laura quando sentiu outra chave de fenda atravessar o pé que sobrava. Na mesma hora Marta se levantou e cuspiu na cara de pânico de Laura.
- Vagabunda? Eu? Fui eu quem roubou o seu marido? Me responde!! – disse isto enquanto agarrava com a mão o rosto da mulher que perdia muito sangue através de vários cortes em seu corpo. – Me responde, sua maldita! Sou eu quem vai conceber um filho do marido de outra mulher? Hein? – e terminou a frase dando um soco na barriga da gestante. Este urro de dor foi mais forte que qualquer outro, mais forte até daqueles soltados enquanto a faca ou a chave de fenda penetravam seu corpo. As lágrimas corriam pelo rosto de Laura, e por um breve momento, Marta sentiu dó daquela criatura. Não por ela, mas pelo bebê. O feto nada tinha a ver com a situação, ele não pedira para ser gerado. Mas este sentimento passou rapidamente. Não importa quem tem culpa ou não, o que importa é que aquela vaca tinha que pagar pelo que fez. Nem mesmo Marcos tinha culpa por aquilo, mas ele estava lá no porão, desacordado, com metade da cabeça vertendo sangue. E por falar em cabeça, a de Marta não parava de doer. Cada vez mais forte. A cada grito de dor soltado por Laura.
- Pare de gritar agora! – ordenou, sem sucesso…
- EU MANDEI PARAR! – dessa vez a voz saiu mais grossa, e Laura se assustou. Os gritos cessaram. Mesmo sentindo uma dor absurda, Laura ficou séria e encarou Marta no fundo dos olhos:
– Quer saber? Pode me matar… – Já sabia que não tinha o que fazer àquela altura – Pelo menos eu curti muito a minha vida. Transei com muitos homens, fiz tudo que com certeza você nunca imaginou fazer. E eu sei disso, Rogério me contava tudo. Ele me dizia que você tinha “nojinho” de chupar ele, e por isso ele terceirizava esse serviço. Às vezes comigo, às vezes com outras… Ele nunca foi só seu. E você é uma trouxa de acreditar que ele te amava de verdade. Se ele te amasse – o tom de voz de Laura era completamente sério, como se nada tivesse acontecido até o momento – ele não tinha ficado comigo. Ele não tinha me levado nos melhores motéis desta cidade, e me dado as noites mais prazerosas da minha vida.
Marta só a observava. Seu rosto começara a ficar rubro de raiva, mas paralisou devido a audácia de Laura naquele momento, que continuou falando:
- Ele sabia me comer, e eu sabia dar tesão a ele. Você, por outro lado, era uma merda na cama. Ele tinha pena de te foder sabia? Fazia isso por pura obrigação matrimonial. Aposto o que quiser contigo – olhou levemente para baixo, em direção à sua vagina – que essa boceta aqui levou muito mais ferro em dois anos com ele que essa tua aí em OITO!
Marta deu-lhe um tapa na cara, mas sem força. Tinha perdido toda ela naquele momento. As palavras dela foram tão serenas que era impossível não acreditar nelas. No fundo ela sabia que aquilo tudo era verdade, mas queria negar. Tentou e fracassou. Tentou novamente e não conseguiu. Então viu Laura rindo, apesar de toda a dor, e a risada era em tom de deboche. Chega, aquela era a gota d’agua. Suas forças voltaram. Ela tinha aceitado a verdade, mas não ia deixar barato. E não deixou.

- Ok, você pode estar certa, sua puta… Mas te garanto, não vai mais usar essa sua boceta nem para mijar, infeliz! – ao dizer isso, arrancou a faca da coxa de Laura, puxou seu vestido o máximo possível para cima e passou a faca pelo pano, rasgando boa parte do tecido estampado. Da altura dos seios para baixo, Laura agora estava nua, inclusive sem calcinha.
“A puta não usa roupa íntima também… mais vadia impossível…” – pensou Marta enquanto mirava os olhos da loira, que por sua vez mirava, agora assustada, os olhos de Marta, que completou seu pensamento em voz alta:
- Pelo menos assim vai facilitar meu serviço… – Marta aproveitou o vão entre as pernas de Laura, devido às próprias amarrações à cadeira, para enfiar a toda a lâmina da faca na “boceta da vaca”. – DÓI, CADELA??? EU NÃO TÔ SINTINDO NADA… – questionou retirando a faca ensanguentada da vagina de Laura e enfiando novamente, desta vez forçando para ir mais fundo. – VÔ MATÁ ESSA MERDA DI CRIANÇA, QUE NEM DIVIA TÁ AQUI DENTRO!
O tom de voz e o jeito de falar de Marta haviam mudado. Ela realmente estava furiosa com aquilo tudo, e enquanto o sangue jorrava das partes íntimas de Laura, ela se deliciava com os gritos de pavor, dor e medo de sua vítima. Repetiu o processo de enfiar e tirar a faca mais umas três vezes, e cada um desses movimentos estraçalhava um pouco mais Laura por dentro. As dores externas não eram absolutamente mais nada se comparadas com as dores internas. A dor da perda de seu filho.

Marta parou, de repente, e caiu ao chão, em meio a poça de sangue que se formara sob a cadeira. Ela se contorcia e gemia, como se estivesse tendo um pesadelo acordada. Mas era dor. A enxaqueca atacara novamente, e desta vez muito mais forte que qualquer outra. Em sua cabeça, não estava mais na sala de sua casa, pelo menos não naquele momento, mas sim em uma sala sem sangue, sem a vaca sentada na cadeira, tudo exatamente no lugar. Ela viu um homem entrar pela porta, mas não o homem de branco com a mancha de sangue no peito. Agora era um homem um pouco mais gordo, aparentemente mais idoso também, carregando uma mala. Seu rosto não aparecia muito bem, estava embaçado, mas Marta tinha a impressão de conhecê-lo, seu porte físico era muito familiar a ela. Ele se sentou no sofá e começou a conversar com Marta, mas em tom muito baixo, o suficiente para ela não conseguir entender o que ele dizia. Quando ela tentou se aproximar para entender os cochichos do homem, tudo se apagou e ela voltou. Estava de novo na sala ensanguentada, com a loira chorando e perdendo sangue de maneira incessável, e agora com Marcos batendo na porta do porão pelo lado de dentro, gritando: “ME DEIXE SAIR! MARTA PELO AMOR DE DEUS, ME DEIXE SAIR! … LAURA!!! O QUE ACONTECEU??? POR QUE ESTÁ CHORANDO??” – e começou a chorar também.
Assim que se levantou, Marta ouviu batidas e gritos vindos de outra porta. Era a porta da frente, aquela pela qual Laura e Marcos entraram. A voz do outro lado também gritava: “SRA, POR FAVOR ABRA A PORTA… RECEBEMOS DENÚNCIA DE GRITOS VINDOS DAQUI , TEMOS QUE ENTRAR. NÃO SE PREOCUPE, SOMOS POLICIAIS TREINADOS! POR FAVOR, ABRA ESSA PORTA!”
Marta estava sem saída. Todo seu plano improvisado correra como planejara até o momento, com exceção da presença da polícia. Laura até poderia gritar por socorro, mas chorava de tanta dor e estava tão fraca pela perda de sangue que não conseguiria nem sequer pronunciar seu próprio nome. E por mais que Marcos gritasse do porão, o policial na porta não o ouviria. O problema é que ele já estava lá e queria entrar para averiguar a situação, e Marta não podia permitir. Não sem antes acabar com aquilo tudo. Correu então para seu quarto e procurou na gaveta de cuecas de seu marido o revólver que ele ali guardava. Nada. Não havia nada ali. Remexeu em outras gavetas e nem sinal da pistola. Decidiu, não sabe por que, verificar em suas gavetas. Lá estava ela. Uma calibre 38, com cinco balas prontas para ser detonadas. Estranhamente faltava uma bala, mas isso não fazia muita importância àquela hora. De repente seu ex-marido utilizou para algum teste e ela não sabia. Percebeu que haviam muitas coisas da vida de seu marido que ela não sabia.
Correu de volta para a sala e apontou a arma para a cabela de Laura, que nem sequer hesitou em resistir. A dor que sentia era tão insuportável que quanto antes aquilo acabasse melhor. E foi o que Marta fez. Um disparo apenas, no meio da testa. O pescoço de Laura deu uma guinada forte para trás com a pressão e potência do tiro, e um grande buraco ficou exposto em sua “cara de vaca”.

Os policiais do lado de fora, ouvindo o tiro, investiram mais forte contra a porta, tentando arrombá-la de qualquer forma. Todo o esforço foi em vão. Continuaram gritando, pedindo que Marta abrisse a porta, se não seriam obrigados à arrombá-la, como se já não tivessem tentando isto a tempo. Marta correu para a porta do porão, e, quase que automaticamente, Marcos sentiu que ela estava se aproximando. Desceu as escadas o mais rápido que pode, e foi bem a tempo. Ela atirou contra a porta, e se ele estivesse ali, tinha sido atingido certamente pela bala do revólver. Ele se escondeu no canto escuro da peça e começou a rezar, pedindo por proteção divina. Marta abriu a porta com a chave que estava no bolso de sua calça e desta vez acendeu a luz antes de descer. Agora, lá embaixo, tudo estava bem iluminado. Iluminado a ponto de ela enxergar TUDO…

Enquanto os policiais investiam na porta de entrada, Marta descia correndo as escadas do porão. Marcos sabia que não tinha onde se esconder, mas acabou se assustando mais com o que viu lá embaixo, na claridade artificial que lhe fora proporcionado, do que com o fato de Marta estar descendo com um revolver carregado nas mãos. Ela atirou mais uma vez, em linha reta, antes de atingir a base da escada, para assustar Marcos e fazê-lo sair de onde quer que estivesse escondido. O que ela não sabia é que ele já estava assustado demais para se preocupar com aquilo. Ao chegar no último degrau da escada, ela vê Marcos, em pé, de costas para ela. “Um alvo fácil”, pensou, ao mesmo tempo que disparou uma bala na nuca do aspirante a advogado. O corpo cambaleou para frente, de leve, e depois desabou para trás, batendo com toda força no chão. Marta, então, teve a visão mais horrível de toda a sua vida, mesmo após torturar a “vaca da Laura”. O que Marcos havia visto e tinha lhe deixado em estado de choque, e que seu corpo cobria do ângulo de visão de Marta assim que ela desceu as escadas, era um corpo. Um corpo ainda com vida. O corpo de Sílvio Prado.

Sílvio Prado estava atirado, no que antes era o canto escuro da peça, de onde Marta ouvia e sentia a respiração pesada e assustadora pouco tempo antes. Ele estava lá, o tempo todo, vivo, porém com um tiro no meio da barriga, metade das tripas para fora, perdendo sangue aos poucos e pálido, muito pálido, como se estivesse ali a um bom tempo.
Ele era um homem forte, um tanto quando gordo, e só então as coisas começaram a ficar claras para Marta. Infelizmente, para ela, à medida que as coisas iam se encaixando, sua enxaqueca ia aumentando. Ficando mais forte que a última que lhe atacara. Ficando mais forte que, possivelmente, a dor sentida por Laura enquanto Marta lhe furava o útero e lhe arrancava o filho aos pedaços.

Ela começou a se enxergar, como uma terceira pessoa. Ela se viu caminhando em direção à uma farmácia. Entrando lá, ela se viu pedindo ao farmacêutico, um homem vestido todo de branco, com uma cruz vermelha, simbolo da saúde, estampada no jaleco, à altura do peito (meu Deus, é o homem que imaginei ter visto quando Marcos me acudiu!!), uma substância líquida para matar ratos. Uma espécie de veneno em que se mergulha a comida e deixa-se de isca para os roedores. Um flash branco lhe cruzou os olhos, e ela viu seu marido chegando em casa, uma madrugada qualquer, com uma jaqueta cinza e celular na mão. Ele ria. Parecia estar feliz com o que lia na tela do celular. Percebeu que as coisas não estavam seguindo uma ordem cronológica, mas sim uma ordem aleatória apenas para confundi-la ainda mais. Ela viu quando ele entrou no banho e se viu levantando da cama, indo até a sala e mexendo na jaqueta do marido. Encontrou uma nota fiscal. Um restaurante chique na zona sul da cidade, e a conta somou mais de 250 reais. Nunca os dois gastaram isto em um restaurante. Ela se viu então mexendo no celular e lendo as mensagens de texto. Sentiu uma dor no coração quando viu sua própria expressão ao ler a mensagem: “Amor, que bom que você ficou feliz com a surpresa. Acho que podemos começar a pensar no chá de bebê, o que você acha? Se for menino, se chamará Rogério Jr. . Adorei nossa noite! Obrigada por tudo! Love, Laura.” (nossa, não vou aguentar!) .
Outro flash branco se passou em seus olhos e ela voltou a realidade. Sílvio agonizava, sem força, à sua frente. Ela derramava lágrimas enquanto olhava para ele e lembrava do que acabara de “viver”. Percebeu que, provavelmente, comprara o veneno após a descoberta da traição e acreditava que aquilo era um jogo de enconde-esconde que sua mente estava jogando com ela. Disparou contra Sílvio uma vez, porque a agonia que ele estava sentindo era imensa e estava, de certa forma, passando para ela. O homem não resistiu e morreu, mas ela ainda não entendia como ele havia chegado ali. Outro flash branco e tudo mudou novamente. Ela estava na cozinha, provavelmente alguns dias depois da descoberta (reparou pelo tamanho de seu cabelo, está mais comprido agora), preparando uma vitamina de morango (a preferida de Rogério). Agora se viu pegando o vidro com o liquido de veneno para rato e virando metade dele na vitamina. Adicionou açúcar , talvez para mascarar o gosto, e aproximou o nariz. Sabia que estava tentando sentir algum aroma diferente na “poção”, mas não sentiu nada. Sucesso! Era isso que queria. Pegou e colocou em uma garrafa térmica, e assim que Rogério se levantou ela lhe entregou a surpresa. Ouviu-se dizer “Bom dia amor, aqui está uma vitamina de morango muito gostosa para você saborear no serviço”, e lembrou-se vagamente deste dia. Não havia percebido até então, mas em sua mente haviam falhas. As vezes de horas, as vezes de um dia inteiro. Como não conseguiu perceber antes isto? Flash! Se viu então indo até o telefone e ligando para Sílvio. Marcara com ele uma visita em sua casa àquela tarde mesmo. Flash! Se viu mais uma vez, agora indo atender a porta. Era Sílvio, o homem de porte físico familiar, idoso, e com uma maleta nas mãos. Viu-o sentar-se no sofá, de frente para ela. Ouviu a conversa dela mesma com o advogado:
- Quero que o senhor escreva uma carta para mim.
- Como assim?
- Simples… escreva uma intimação para a Laura, dizendo que tem uma reunião aqui em casa na segunda feira que vem, às 16 horas. Diga que irá discutir o testamento de Rogério com ela. Diga que venha sozinha! Ah, e assine por favor.
Viu quando o homem idoso se espantou e deixou escapar de sua boca:
- Você… conhece… a Laurinha?
- LAURINHA? Então você também a conhece? Você sabia dessa sacanagem toda e não disse nada? E ainda em a coragem de chamar de “Laurinha” na minha frente??
Marta se viu sacando o revolver do marido, estrategicamente colocado debaixo da almofada ao seu lado e apontando para a cara de Sílvio.
- Vamos, velho Filho da Puta. Escreva logo essa merda!
Sílvio ainda questionou sobre o porque do testamento, e ficou chocado ao ver a naturalidade que Marta recebera a ligação do escritório de Rogério, informando a morte por “infarto” de seu marido.
- Como assim?? Seu marido morreu e você está tranquila? Não acredito que VOCÊ TENHA CAUSADO ESTE INFARTO NELE!!
- Cale a boca, velho gordo… – Viu quando tirou o telefone do gancho e deixou-o dar os famosos “Tu-Tu-Tu”…. – Não quero ninguém mais me interrompendo. Vamos, escreva.
Viu o velho abrindo a maleta e tirando o papel timbrado, o envelope e todo o conteúdo necessário para fazer o que a mulher o pedia. “Não se deve contrariar alguém com uma arma apontada para você” – Marta conseguiu ler este pensamento de Sílvio.
Flash.
Viu quando o homem terminara de escrever e envelopar a carta. Viu também quando ele levantou e disse:
-Tenho que ir, já cumpri meu papel por hoje…
– Tem que ir nada! Sente-se! Você sabe o que eu fiz e não posso deixá-lo ir.
Viu o gordo se apavorar com a situação e tentar sair correndo, e se viu colocando-se à frente dele. Se viu também entrando em luta corporal com o homem, e sabendo que tinha menos força, viu como única solução colocar a arma na barriga gorda de Sílvio e atirar. ( a bala que estava faltando, como não me lembro disto?! ). O homem caiu desmaiado na hora, com um rombo na pança, sangue vertendo do novo umbigo feito por Marta, sendo que sua própria gordura abafou o som do tiro.
Se viu após isso fazendo um tremendo esforço para levar o corpo pesado até o porão, e trancá-lo lá, para redescobri-lo apenas uma semana depois.

Tudo voltou ao normal agora. Ela estava no porão, o corpo do velho desgraçado estava sem vida, ao lado dele outro corpo na mesma situação. Lá em cima, mais um corpo morto. E os policiais, que a esta altura já conseguiram arrombar a porta, na escada. Apontou a arma para o primeiro que viu descendo, mas o homem treinado era mais rápido. Apenas um tiro certeiro e pronto. Outro corpo estendido ao chão, agora o de Marta, ao lado de dois advogados. Mais uma alma para o inferno. Mais uma companhia para Rogério, Laura, Sílvio e Marcos.

Flash!

Tudo escureceu.

Fazendo força para abrir os olhos, Marta olha o relógio na cabeceira da cama e vê que são 8 horas da manhã de terça. Ela está encharcada de suor e a cama ainda mais molhada que ela própria. Ela apalpa a testa, procurando pelo buraco da bala saída do revolver do policial, e nada. Ouve o som do chuveiro e alguém cantando ao mesmo tempo. Aquela voz ela conhecia bem, e era a voz de Rogério, tomando banho enquanto canta “Paranoid”. Ela respira aliviada, já que tudo não passou de um pesadelo, apesar de ela estar bem cansada como se tivesse vivido aquilo tudo de verdade. Devia ter adormecido enquanto esperava Rogério chegar do serviço e nem havia percebido, e sabia que assim que Rogério saísse do banho, seria a vez dela. Estava muito suada. Mas antes disto, ia tomar uma deliciosa vitamina de morango, sem veneno é claro.
Ao chegar na cozinha, percebe o bastão de beisebol no seu lugar tradicional, próximo à geladeira. Sem manchas de sangue. Era o que ela precisava ver para ficar mais tranquila. “Como pode um sonho ser tão real?” – pensava Marta, mas fica sem saber o que fazer, totalmente atordoada e a ponto de enlouquecer, quando escuta o celular de seu marido tocar, não resiste em pegar para ver o que é, e dá de cara com a mensagem:
“Adorei nossa noite ontem, querido. Você realmente sabe como tratar uma mulher, hein gostosão! Te espero aqui em casa para outra sessão de loucuras sexy com você, gato! Beijos, Laurinha….”
Mais uma vez, a cabeça de Marta começa a doer…

Ricardo Hallen
Novembro / 2012

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