Conflitos na Rua das Laranjeiras

Postado em 20/11/2013 por Ricardo Brusch

 

A noite de Susan não foi nada agradável. Antes de dormir teve uma longa discussão com seu marido sobre o orçamento da casa. Este ano estava extremamente difícil manter o padrão de vida adotado por eles desde o casamento. Carlos havia sido demitido da empresa que trabalhava à mais de dez anos, e mesmo arrumando rapidamente outro emprego, o nível salarial havia caído bastante. Susan dizia que não podia trabalhar ainda, e usava como desculpa o fruto da união com o marido. Caroline era uma menina de apenas 7 anos de idade, e mesmo sabendo que poderia deixá-la em creches ou com os avós, Susan preferia usá-la como escudo às tentativas frustradas do marido de arrumar-lhe um emprego. Carlos e Susan sonhavam em levar sua pequena Caroline para conhecer a Disney, o paraíso para qualquer criança, porém após o imprevisto da demissão de Carlos, esse sonho ficou um pouco mais distante. A discussão na noite passada foi sobre como este sonho e qualquer outro (como o sonho da casa própria, por exemplo) ficaria mais próximo se Susan arrumasse um emprego e gerasse renda para o orçamento da família. Acabaram dormindo de costas um para o outro, seriamente brigados e sem nenhuma solução em vista.

 

Quando acordou pela manhã, Susan percebeu que Carlos já havia saído para o trabalho. Não gostava que ele saísse sem se despedir, mas naquela manhã isso foi totalmente aceitável. Susan então levantou e se vestiu, preparou o café da manhã para ela e para Caroline, e vestiu a pequena para que ambas saíssem. Caroline tinha consulta com o pediatra, então não podiam correr o risco de se atrasar. Ultimamente ela andava um tanto assustada, e manchas escuras apareciam pelo seu corpo, como hematomas, da noite pro dia. Carol não sabia dizer o que era, e Susan imaginou que ela pudesse estar doente. Talvez mais adiante à levasse à um psicólogo também.

O médico ficava no centro da cidade, e já que moravam na Rua das Laranjeiras, na zona sul, o método mais rápido de chegar até lá era de metrô. Foi o que fizeram. Susan tirou de sua bolsa moedas suficientes para pagar uma entrada e meia e entregou à mulher que atendia no caixa da estação. Em menos de dois minutos já estavam passando os tickets pela catraca e embarcando naquela “linda serpente prateada”, conforme descrito por Caroline.

 

Sentaram-se na primeira poltrona dupla disponível, e por sorte, tinha uma bela vista da janela. O sol estava à uns 45 graus do solo, o que deixava a vista ainda mais linda. Caroline fazia força para conseguir enxergar pela janela, pois sentada ainda não tinha altura suficiente para alcançá-la sem maiores problemas. Susan se sentou e relaxou. Estava exausta da noite passada, além de ter dormido muito mal e acordado diversas vezes à noite. Susan nem percebeu quando caiu no sono.

Em sua cabeça, Susan permanecia acordada dentro do metrô. Começou a achar estranho quando o sol que brilhava no lindo céu simplesmente se escondeu por trás de uma nuvem escura e o clima esfriou consideravelmente em questão de segundos. A velocidade da viagem parecia também ter aumentado, pois não conseguia mais acompanhar o movimento das coisas pela janela, tudo passava muito rápido como um borrão. Próximo à porta, o indicador de estação tinha ficado estranho, pois piscava sua luz vermelha incessantemente em todas as estações listadas. Era como se tivesse em todos os lugares e em nenhum lugar ao mesmo tempo. Como um reflexo de mãe, ao ver todas aquelas coisas estranhas, protegeu Caroline passando-lhe o braço em volta do pescoço e trazendo-a junto à si, mas para surpresa (e desespero) seu braço passou em vão pela poltrona ao lado. Caroline não estava mais ali. Olhou para o lado para confirmar a situação, e deu de cara apenas com o velho forro vermelho do assento, liso, como se ninguém tivesse sentado ali à um bom tempo. Um frio lhe percorreu a espinha de cima a baixo, e ao virar para o outro lado ainda procurando por vestígios de Caroline, ela percebe que está sozinha no trem. Todas as poltronas desocupadas. Em um ato de pavor, Susan se levantou e percorreu a extensão do vagão até a porta que levava ao vagão da frente. A pequena janela que mostrava a ligação entre os vagões estava completamente suja, o que impedia a visão de qualquer coisa do outro lado. A porta, por sua vez, estava trancada (não era para menos, isto era questão de segurança).

A escuridão do lado de fora do metrô se tornou ainda mais densa, o que dificultou a visão dentro do vagão. Em menos de um minuto Susan estava na escuridão total, e só conseguia saber que ainda estava dentro do metrô pelo barulho das engrenagens sobre os trilhos elétricos, e o leve sacolejar que sentia devido ao movimento. Agachou-se então, ali mesmo, colocou a cabeça entre as pernas e começou a rezar. Susan chegou a acreditar que sua oração havia funcionado quando, por entre suas pernas, viu que as luzes internas do metrô haviam sido acessas, porém ao levantar a cabeça ela se deparou com algumas pessoas que magicamente apareceram no vagão. Eram poucas e estavam bem dividas entre os bancos, mas de qualquer forma não era possível, ao menos na percepção de Susan, que aquelas pessoas tivessem simplesmente brotado ali naquele momento. Começou levemente a se levantar de onde estava agachada, mas desistiu quando percebeu que, acompanhando o seu movimento, as pessoas espalhadas pelo vagão iniciaram um movimento de cabeça como se estivessem tentado olhar para ela. Com o mesmo cuidado que teve para tentar se levantar, Susan iniciou o processo contrário, e se agachou novamente. Na mesma velocidade que se agachava, as cabeças das pessoas voltavam às suas posições originais. Era assuntador ver a rigidez que todos apresentavam e a dureza nos movimentos dos pescoços. Susan sabia que precisava sair dali, mas não podia com o trem em movimento, muito menos com aqueles seres (que apesar da aparência comum eram qualquer coisa, menos humanos) fixos em suas poltronas. Olhou para um lado e para o outro, sem movimentos bruscos, à procura de algo que pudesse ajudar. À três poltronas (felizmente vazias) de distância havia na parede uma alavanca que ativava os freios de emergência. Era aquilo ou nada mais. Susan sabia que não tinha escolha. Deveria puxar a alavanca, esperar o metrô parar e descer, onde quer que estivesse, para procurar Caroline. E foi exatamente o que fez, levantou devagar (já prevendo o movimento dos pescoços em sua direção) e quando estava em pé, todas as cabeças voltadas para ela (não só daqueles que estavam sentados nos bancos na posição lateral do trem, mas inclusive as cabeças daqueles que estavam de costas, num improvável movimento de 180 graus), Susan paralisou. Nunca havia visto na vida uma cena tão aterrorizante quanto aquelas. Percebeu só neste momento que as cabeças eram como crânios puros de tão magras, e os olhos eram apenas duas órbitas negras na face. Algumas bocas estavam levemente abertas, mostrando dentes amarelados e até mesmo a inexistência deles, tudo com um aspecto extremamente esquelético.

 

Susan respirou fundo, tomou fôlego, fez uma breve oração para si mesma e deu 6 passadas rápidas e largas até a alavanca. Quando conseguiu alcançá-la, percebeu que aquelas coisas que estavam olhando para ela agora estavam em pé, com corpos e cabeças voltadas para sua direção. Não teve forças para puxar a alavanca. Os braços fraquejaram de medo, bem como suas pernas e ela quase caiu, devido à um solavanco forte dado pelo metrô. As bocas se abriram simultaneamente e soltaram um grito conjunto estridente que fez os vidros do vagão estilhaçarem pelos ares. Os corpos simplesmente caíram no chão, sem vida, e sombras começaram a rodas sobre eles, como anjos da morte prontos para iniciar sua colheita. Susan fez o possível para evitar olhar para as sombras, mas elas estavam por todo o vagão agora. Estavam entrando pelas janelas quebradas. Algumas rodearam seu corpo de maneira fantasmagórica, e ao tentar se esquivar delas Susan acabou caindo sobre uma poltrona onde agora havia um ser apodrecido sentado. O contato de suas nádegas e costas mesmo vestidas com a carne em decomposição daquele monstro foi tão nojento quanto assustador, e ao tentar levantar Susan sentiu o forte abraço do ser tentando segurar seus seios e forçando para que ela ficasse sentada. Tentou se livrar mas foi em vão. Outro ser que surgiu de uma poltrona um pouco mais à frente foi ao seu encontro, se atirando em cima dela quando chegou perto o suficiente. Os ossos daquele monstro se quebraram, e o pó resultante da queda entrou em suas narinas, lhe causando profundas náuseas. Quando percebeu, estava nua sob o cadáver podre, ao mesmo tempo que estava sendo violentamente estuprada por ele. A sensação era indescritivelmente ruim, e quando mais tentava se livrar, mais sentia que sua mãos e seus braços estavam sendo presos por correntes às paredes do metrô, até que ficou completamente esticada entre as paredes direita e esquerda do vagão, suspensa apenas por seus braços acorrentados, completamente nua e sangrando por todos os orifícios que seu corpo tinha. A dor era insuportável, e a agonia de sentir o metal rasgando sua carne era horrível. Queria morrer logo. Desejava o fim mais que qualquer outra coisa. As sombras agora atravessavam uma a uma o corpo de Susan, e cada vez que isto acontecia era como se arrancassem um órgão seu. Quando criou coragem de olhar para baixo, Susan não viu nada abaixo dos seios, enquanto seu tronco e pernas estavam esticados no chão do vagão logo abaixo dela servindo de alimento para dois outros seres pequenos e decompostos que gargalhavam na poça de sangue enquanto enchiam a boca de carne. Susan gritava de dor e chorava implorando por piedade, mas nada adianta. As criaturas continuavam a torturá-la sem parar.

 

- Mãe, mãe! Acorde! – gritou a pequena Caroline enquanto sacudia Susan pelos ombros. Ela estava em pé sobre a poltrona, se equilibrando para não cair enquanto fazia isto. Susan abriu os olhos. Percebeu que todos no vagão à olhavam, e imaginava que gritara bastante durante seu pesadelo. Sentia que podia mexer as pernas, mas mesmo assim fez questão de apalpá-las para garantir que tudo estivesse no lugar. Transpirava dos pés à cabeça. Após recompor-se, olhou para a filha, pegou-a no colo e agradeceu por tê-la despertado. Rapidamente olhou para o painel que indicava a estação onde estavam e percebeu que fazia pouquíssimos minutos que haviam saído do terminal que embarcaram.

- Nossa, Carol… A mamãe teve um pesadelo horrível! Foi muito ruim mesmo…

Então Caroline, muito calma, abraçando Susan e inclinando um pouco a cabeça, diz olhando no fundo dos olhos da mãe:

- Eu sei mamãe… Eu conheço as sombras e todos os outros… Eu os vejo de vez em quando… E esta noite, enquanto você e o papai brigavam, eles me visitaram de novo… Entraram no meu quarto, chegaram bem perto da minha cama e me disseram bem baixinho que iam se apresentar para você hoje. Falaram que você ia ficar melhor do lado de lá, com eles… Eu pedi pra eles não te machucarem, mas acho que não me ouviram…

 

Susan, ainda impressionada com o pesadelo e agora chocada com a declaração da filha, questiona:

- Você sonhou com isso, meu amor?

- Não mãe. – diz Caroline com a voz um pouco assustada – Eles são reais. Eles moram na casa, com a gente… Eles já estavam lá à muito tempo atrás. Eles sempre moraram lá… Eu tenho medo deles mamãe, mas eles gostam de brincar comigo… – um tom de vergonha foi percebido em sua voz nesse momento – E eles me obrigavam a manter segredo. Me disseram também várias vezes que quanto mais você e o papai brigam, mais fortes eles ficam. Agora que você já os conhece, por favor, vamos embora daquela casa… Conversa com o papai e vamos nos mudar. Não quero que eles me toquem de novo. Nunca mais.

Naquela mesma tarde, Susan saiu para procurar emprego. Ligou para o marido e explicou a situação. Dormiram por duas semanas num hotel no centro da cidade, até conseguirem alugar outra casa razoavelmente boa para morarem. Não voltaram à sua antiga residência nem para buscar seus pertences. Os hematomas pelo corpo de Caroline cessaram, e a família nunca esteve tão unida até então.

 

E, infelizmente, a casa da Rua das Laranjeiras foi colocada para aluguel novamente…

 

 

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