O Hábito

Postado em 18/11/2013 por Ricardo Brusch

 

Ir à igreja não era um costume entre os moradores daquele pequeno vilarejo. Existiam domingos em que o padre não rezava a missa por falta de fiéis presentes. Nos outros, não haviam bancos da igreja com mais de duas pessoas cada. Em geral senhoras levando seus filhos mais moços, sendo estes contra sua própria vontade. A freira, uma senhora idosa com pele bem enrugada, se esforçava para manter uma turma de catequese por semestre. Esta turma, por sua vez, não passava de 4 ou 5 alunos. Se esforçavam em aprender apenas o necessário para que suas mães não ficassem “enchendo o saco”.

 

Era uma manhã de sábado, então, quando o vilarejo todo ficou sabendo da notícia: na última madrugada a freira Maria, como à conheciam, havia falecido. Uma morte sem explicações claras. Talvez um infarto, um AVC, ninguém podia afirmar. O corpo foi encontrado pela manhã pelo próprio padre ao visitar o aposento da freira, preocupado com seu atraso para a aula de catequese das 8 horas.

 

Felizmente a arquidiocese da região estava preparada para qualquer situação, e naquela mesma manhã, enquanto a igrejinha local se preparava para o funeral da velha freira, eles estavam enviando uma nova para cobrir a falta da irmã Maria.

 
Eram menos de 3 horas da tarde quando a freira Lúcia chegou no vilarejo. Por ser pequena a localidade, todos os moradores viram a sua chegada. Todos ficaram admirados.

 

Lúcia era jovem, muito jovem. Aparentava estar no auge de seus 18 anos. Tinha estatura mediana. O corpo por baixo do hábito aparentava ter belas curvas. O único pedaço de pele que viam da moça era seu rosto. Um belo rosto. Olhos grandes e em tom azulado, cintilando contra a luz do sol da tarde. Nariz fino e levemente arrebitado. Bochechas redondas e um tanto rosadas pelo calor que fazia. A boca, que tinha lábios finos e vermelhos, contrastavam com a pele clarinha de Lúcia. A leveza e suavidade que ela passava encantava e excitava. Se não fosse uma freira, poderiam facilmente confundir a perfeição da combinação de tons naturais daquele rosto com maquiagem.

 

Os 3 alunos meninos da aula de catequese vibraram silenciosamente. Alguns dos homens do vilarejo não falaram naquele momento, mas sabiam que iriam à missa no próximo dia. Até mesmo o Padre, ao receber Lúcia, tremeu um pouco suas próprias mãos ao apertar as mãos da moça, que naquele momento estavam envoltas em uma luva fina de seda da cor branca.

 

Na manhã seguinte o padre rezou a missa para a igreja mais cheia que ele já tinha visto nos últimos 3 ou 4 anos como padre dali. Os pais de família fizeram questão de comparecer, bem como todos os adolescentes da cidade. Via-se, pela primeira vez desde sempre, uma igreja onde sua maioria era de homens, e a grande maioria destes não estavam dedicando sua atenção às palavras do padre, mas sim à bela moça de hábito cinza ao seu lado. As mulheres estavam presentes, porém em menor número. Estas sim rezavam de todo o coração. Ao final da missa, todos se dirigiram às suas casas, sendo alguns aliviados de seus pecados e (muitos) outros querendo pecar um pouco mais, um nível de pecado que iria condenar suas almas à eternidade no inferno, mas era um risco que valeria a pena correr.

 

Lúcia era atenciosa com todos, ajudava seus alunos nas aulas de catequese e ajudava o padre a preparar as missas dos domingos, estas que estavam cada vez mais cheias. Dois meses se passaram e o vilarejo todo só falava da nova freira. Durante o período de trabalho os homens comentavam sobre a beleza da srta. Lúcia, enquanto as mulheres se reuniam em grupos de conversa e criticavam a jovem. “Ela é muito nova para ser uma professora de catequese” – criticava uma, enquanto outra dizia: “Onde já se viu, uma mulher daquelas ser freira.. no mínimo ganhava a vida com sexo e agora quer o perdão divino…”. A discórdia estava implantada naquele vilarejo.

 

Na medida que o tempo foi passando, os homens começaram a criticar suas esposas por ser gordas, feias, ou por simplesmente não ser jovens. As mulheres, por sua vez, reclamavam de seus maridos pois não paravam de olhar para aquela “freirinha”, e também por que não queriam mais saber de suas “obrigações como maridos”. E Lúcia, nada falava. Já sabia que era a causa daquele alvoroço pela comunidade, mas mesmo assim o que mais poderia ser feito de sua parte? Tinha consciência de sua beleza, porém não mostrava nada além de seu rosto e mãos. Começava aos poucos a se arrepender de, a mais de 500 anos atrás, ter feito um pacto com o Diabo e obtido a beleza eterna. A única certeza que tinha era que não podia mostrar nada além das partes que já mostrava, pois, conforme proposto no pacto, teria 500 anos de juventude por completo, e após isto seu corpo apodreceria. As únicas partes que iria manter intactas eram aquilas que interessavam ao próprio Satanás. Para uma freira, mãos e rosto eram o suficientes. O rostinho angelical foi cuidadosamente moldado para que pudesse provocar os homens de todas as idades por onde passasse. Causar sentimentos impuros até na mais jovem alma era sua missão. Pâmela, que à pouco mais de dois meses passara a se chamava Lúcia, tivera quinhentos intensos anos de prazer, sexo e luxo. Agora estava na hora de pagar sua dívida. Fora implantada dentro de um convento e rapidamente solicitada para substituir uma velha freira que morrera misteriosamente (talvez nem tão misteriosamente agora, não?). Apesar do rosto perfeito, iria sofrer mais algumas centenas de anos com as dores do seu corpo em eterna decomposição por baixo do hábito enfeitiçado que fazia aparentar curvas despropositadamente sensuais, ao mesmo tempo que inibia o odor da podridão exalado pelos pedaços soltos de sua carne. A maior diversão de Lúcifer é fazer o ser humano destruir a si próprio. E ver isto tudo acontecendo por fatores gerados dentro da casa do Pai era extremamente mais divertido.

 
 

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