O (meu) Fim do Mundo

Postado em 04/06/2013 por Ricardo Brusch

    Era manhã em 19 de dezembro de 2012. Na TV, constantes documentários eram apresentados falando sobre o dia que estaria por vir. Por muito tempo este dia era aguardado: por uns, com fé; por outros, com medo; e por outros, indiferente… Mas todos o aguardavam. Diziam que em dois dias o mundo acabaria. Ao menos a profecia assim revelava. Vinte e um de dezembro. Muitos suicídios já haviam acontecido, em especial nos últimos dias, com a aproximação da data final. E Marcos era um dos que estavam quase optando pelo mesmo infeliz destino.

    Era um homem no auge de sua vida, trinta e dois anos, imóvel próprio, poupança recheada, gerente de uma grande empresa nacional. E sozinho. Devido ao grande sucesso profissional, as mulheres com quem transava o desejavam pelo que tinha e não pelo que era. Dezenas de parceiras passavam pela sua cama a cada ano, mas nunca alguém com quem realmente pudesse dividir seus segredos e suas paixões. Sem familiares próximos, sua vida a muito tempo se tornara chata e solitária, deixando-o constantemente em depressão. E os documentários na TV, apresentando tudo de ruim que já acontecera com o mundo até o momento, e tudo de pior que possivelmente viria a acontecer apenas deixavam a situação ainda mais delicada. O suicídio era a solução, pelo menos na cabeça de Marcos.

    O que tinha de vontade acabava faltando em coragem, apesar de estar quase totalmente decidido. Já nem fora trabalhar aquela manhã, de que adiantaria mesmo? Em dois dias tudo estaria acabado, e nem a oportunidade de receber o imenso contra-cheque Marcos teria. Aliás, a esta altura nada mais era importante. O dinheiro, a carreira, o sucesso… A vida. Achava injusto sua vida ter agiria com uma situação destas…de acabar como tantas outras, de maneira catastrófica, pois acreditava merecer um final mais digno que muita gente que não simpatizava. O vizinho do apartamento de cima por exemplo. O infeliz que mesmo morando em condomínio de classe média-alta se comportava como classe baixa. Músicas a todo volume, festas, drogas e muitas outras coisas ilegais perante a lei rolavam no apto 1701. E infelizmente Marcos morava logo abaixo. Sabia de algo que queria fazer antes de morrer, e era dar uma lição ao playboyzinho do apto de cima.

    Uma surra era pouco. O fim estava muito próximo e não se tinha mais nada a perder. Pegou uma faca. Soltou. Agarrou-a e soltou-a novamente. Foi ao quarto e puxou de baixo da cama uma grande caixa com ferramentas de todos os gêneros. O pé de cabra foi a escolhida. Sessenta centímetros de ferro puro, o suficiente para desmaiar um homem se bem acertado na cabeça. E o suficiente para matá-lo se bem acertado mais de uma vez. O que se passou a partir daí já é de se imaginar. Um lance de escadas para cima e lá estava Marcos à frente da porta com o número 1701 esculpido sobre a madeira. O tocar da campainha foi suave, mas a surpresa do vizinho ao abrir a porta foi completamente o contrário disto. Foram cinco ou seis porradas na cabeça do infeliz até ter a certeza que ele não estava mais vivo. Se sentia vingado das noites que não dormira em função de festas alheias. E o mais interessante: sentia-se mais vivo agora, após tirar a vida de outra pessoa, do que nunca. Decidiu experimentar mais…

    Foi a vez do babaca do presidente da companhia. O imbecil que lhe culpava por erros dos outros e ainda jogava em sua cara: “Você quer ser o gerente? Se comporte como um. Cobre dos seus subordinados assim como estou lhe cobrando agora!”. No fundo ele estava certo, mas Marcos não gostava daquele tom arrogante do cara, e este foi o motivo para esperar-lhe no estacionamento da empresa, algo em torno das 10 horas da manhã (o horário que o babaca chegava). O estacionamento no subsolo era tranquilo o suficiente para Marcos executar o que pretendia sem muita preocupação. Desta vez foram precisos mais golpes, e isso acabou deixando Marcos ainda mais contente. Quanto mais dor ele causava nos outros, mais se sentia vivo.

    Marcos fez mentalmente uma lista de pessoas que desejava ver morrer, e se utilizou destas 48 horas que restavam à humanidade para este fim. Acabou por chegar o dia 21 de dezembro, e para surpresa de muitos, o mundo não acabou. Nem tempo ruim fez. Mas Marcos continuava a matar todos os que achava que merecia e todos que achava conveniente. Pegou gosto pela coisa. Nunca foi preso. Largou todos os bens, o dinheiro e o conforto para viver como uma pessoa qualquer, furtando os pertences daqueles que matava para se sustentar e pagar as pensões que repousava à noite. Ou ao dia. Só parou de matar quando, numa noite em junho de 2013, a Terra entrou em colapso. Vulcões do mundo todo entraram em erupção ao mesmo tempo, placas se soltaram sob os três grandes oceanos, formando ondas gigantescas que rumavam em todas as direções possíveis, e diante do fim inevitável, sem aviso prévio ou sem profecia alguma para justificar, Marcos cedeu a pressão e cometeu o último assassinato. O seu próprio.

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