(Última) Viagem em Família

Postado em 04/01/2014 por Ricardo Brusch

Todo mundo gosta de viajar. Conhecer novos lugares e novas pessoas é o hobby de muita gente, e era também o passatempo preferido da minha família. Disse “era”, pois as coisas mudaram um pouco após nossa última viagem. A experiência que tivemos ficará marcada para sempre (infelizmente de forma negativa) em nossas vidas (ou o que sobrou delas).

 

Decidimos, minha esposa, eu e nossos três filhos, que iríamos pegar o carro no feriadão de final de ano e, saindo de Porto Alegre, faríamos um tour por Santa Catarina, Paraná e talvez até São Paulo e Minas Gerais. Sem destino e sem roteiro fixo, quando nossos traseiros começassem a doer muito, faríamos o retorno e voltaríamos para nossa linda cidade. Fizemos uma boa economia durante o ano, o que cobriria facilmente despesas com gasolina, alimentação e até hotéis pelo caminho quando necessário, além é claro de lembrancinhas pelas cidades que iríamos passar. Fizemos as malas, colocamos roupas suficientes para 8 ou 10 (talvez até 12) dias sem passar perto de uma lavanderia (isso ocupou quase todo o porta-malas), câmeras digitais (cada membro da família tinha uma, com exceção do caçula de 4 anos) e pilhas alcalinas para uma eternidade. Lanternas, alguns lençóis e muitas guloseimas fechavam o pacote. Já podíamos partir.

Eram 6 horas da manhã do dia 24 de dezembro quando girei a chave do carro e iniciamos nossa jornada. A ideia era chegar antes do entardecer em Santa Catarina, após visitar rapidamente uma ou duas cidades da serra gaúcha, parar em Vacaria para almoçar (ou tomar café da tarde) e retomar a estrada até Taió ou Salete, duas cidadezinhas tranquilas que eram candidatas para passarmos a noite de Natal.

A viagem iniciou animada. Fomos escutando baladas clássicas dos anos 70 e 80, com algumas contestações de nosso filho mais velho, André, que no auge dos seus 15 anos queria ouvir bandas como CPM 22 e Charlie Brown. Para Pedro, de 11 anos, o som estava agradável. O caçula Henrique, por sua vez, não queria saber de nada além do tablet que emprestei (e perdi) pra ele, onde jogava incansavelmente Angry Birds. É incrível a capacidade de assimilação das crianças da idade dele para estes joguinhos que exigem cálculos inconscientes como força do toque, velocidade de arremesso, etc..

 

Tudo corria bem e dentro do esperado. Apesar do calor que fazia, o céu estava nublado o suficiente para não deixar vestígios de onde estaria o sol acima das nossas cabeças. Paramos em Caxias do Sul para tirar algumas fotos de pontos turísticos e tomar um gostoso café da manhã (mais fotos aqui). A farta mesa do restaurante contava com uns 5 ou 6 tipos de pães, diversas geleias, salames das mais deferentes texturas e sabores… Tudo impecável e muito saboroso. Porém, não tínhamos intenção de ficar ali para sempre, portanto enchemos a barriga e continuamos nossa jornada. Se, por um momento, eu pudesse prever o que estava para acontecer, teria me dado por satisfeito com este desjejum e iniciado o caminho de volta para casa ali mesmo.

 

Era pouco mais de 1 da tarde quando alcançamos a cidade de Vacaria. Apesar do grande banquete pela manhã, parecia que à muito ele havia acontecido, e resolvemos almoçar por ali mesmo. Passamos por três restaurantes na via principal da cidade, mas Judite não gostou da aparência de nenhum.

- Não quero comer em um lugar que parece minha casa… Quero um lugar diferente, grande… Deve haver outros por aqui. – quando almoçava fora, Judite sempre fazia questão de escolher o restaurante, e isso as vezes me deixava irritado. Porém, para não arrumar encrenca, mais uma vez deixei que ela escolhesse.

 

Foi quase no limite da cidade que ela encontrou um que à agradasse. Era um restaurante com um certo estilo, admito. Todo construído em pedras, com aparência de um castelo do século XV, realmente era bem agradável. Era espaçoso por dentro, e as mesas eram bem distribuídas ao redor do buffet principal. Este, por sua vez, era bem amplo e dividido entre comidas quentes, frias, saladas e sobremesas. Éramos apenas nós e mais meia dúzia de clientes naquele dia (não podíamos esperar muito de uma véspera de Natal, certo?), mas a comida enchia as bandejas e parecia bem fresca. Isso abriu o meu apetite de uma forma que me fez esquecer do maravilhoso café da manhã algumas horas atrás em Caxias do Sul. Acredito, pelo olhar dos meus companheiros de viagem, que o sentimento neles foi o mesmo. Escolhemos uma mesa próxima à janela, com vista para a rua, e nos sentamos. A garçonete gentilmente trouxe uma cadeira extra para Henrique, e a posicionou na ponta da mesa. Após nos acomodarmos, perguntamos sobre o funcionamento da casa, valores, e todas essas informações necessárias para que não nos passem a perna na hora de pagar a conta. Optamos pela opção de buffet livre (paga-se menos, come-se mais – o lema da casa). Fomos “apresentados” ao buffet, nos servimos e voltamos para a mesa, para desfrutar da refeição mais importante do dia (pelo menos para mim). Minha última refeição em família.

 

Estava saboreando o delicioso “bife acebolado à moda da casa” quando olhei pela janela e percebi dois sujeitos discutindo. Não conseguia ouvir nada, mas pelos gestos e pelos nervos saltados no pescoço de ambos, tinha certeza que estavam gritando. Um deles era um senhor de barba branca (não tão grande quanto a barba de Billy Gibbons, do ZZ Top, mas talvez em uns 2 anos estivesse lá), aparentava ter seus cinquenta e poucos anos e vestia uma jaqueta de couro marrom, além dos jeans surrados e as botas de camurça pretas. Era um legítimo “metido à fazendeiro” que vemos pelas cidades do interior de qualquer estado. O outro era um jovem, com no máximo 30 anos, rosto liso e corpo magrelo, vestido com roupas comuns, porém bem velhas. Eles estavam a uns 6 metros da lateral do restaurante, porém a menos de 50 centímetros um do outro. Dava claramente para perceber que estavam à ponto de “ir as vias de fato”. Antes que eu pudesse processar as informações mais claramente, o sujeito mais novo levantou o braço e deu um soco no peito do “Billy”, que por sua vez revidou e acertou, com o punho fechado, a têmpora direita do mais novo. O jovem balançou desequilibrado para o lado esquerdo, se recompôs e tentou acertar Billy com um chute de direita, só que o pé passou no vácuo e o fez desequilibrar de novo, só que agora para o outro lado. Billy aproveitou o momento de bobeira do jovem e se jogou sobre ele, o corpo robusto sobre o magrelo, e os dois caíram no chão, se gladiando da maneira que podiam. A cena me chocou no momento que Billy puxou da cintura uma faca e, segurando os braços do mais novo com apenas uma mão, pôs a lâmina sobre o pescoço do adversário. Neste momento tenho certeza que minha esposa já estava me pedindo para fechar a janela e avisar a gerência do restaurante que chamasse a polícia, mas não consegui tirar os olhos da cena, por mais forte que fosse. O jovem esperneava, os nervos cada vez mais saltados, e com muito esforço conseguiu soltar um dos braços. O utilizou para tentar afastar a lâmina, mas eu sabia que o jovem não ia conseguir. A lembrança mais clara que tenho deste momento foi quando ele virou a cabeça para o lado, evitando olhar a lâmina que em breve cortaria sua jugular, e os seus olhos enfurecidos encontraram os meus. Dos clientes do restaurante, os únicos que estavam sentados próximo à janela eram nós. Ninguém mais via os dois homens ali brigando, e eu pude ler claramente em seus lábios quando ele tentou falar “Me ajude”, enquanto evitava a lâmina. Não soube o que fazer. Uma mistura de medo e nervosismo tomou conta de mim, quando finalmente minha esposa puxou a pequena cortinha da janela e me tirou daquele momento de transe em que eu estava.

 

- Você viu aquilo? O velho vai matar aquele cara! – Falei para minha esposa, que também estava nervosa mas tentava acalmar as crianças que infelizmente acompanharam aquilo tudo.

-Sim, eu vi, mas vamos esquecer, melhor não nos metermos…

André estava pálido e Pedro começara a chorar. Felizmente Henrique ainda era muito novo para entender o que estava acontecendo ali. Não pensei duas vezes e me levantei da mesa.

- O que tu vai fazer? – a pergunta veio alta o suficiente para que os outros clientes parassem de conversar e comer e virassem todos em nossa direção, curiosos.

- Falar com a gerente, chamar a polícia, sei lá, qualquer coisa.

- Não, Carlos, não vai adiantar nada,… – o que ela falou depois disso eu não me lembro, não sei se foi por que não ouvi ou simplesmente deletei da mente. Fui correndo até o balcão de pagamento e perguntei quem era o gerente. A senhora de cabelos brancos, rosto redondo e óculos fundo-de-garrafa gentilmente apontou para o crachá que dizia “Maria de Lurdes – Gerente”.

- Maria, por favor, – as palavras saiam mais rápido do que eu podia processá-las – o Billy tá lá fora matando um cara! Chama a polícia!

- Quem é Billy? – ela me questionou com a suavidade peculiar de uma senhora com mais de 60 anos – e quem ele quer matar?

- Desculpe, tem um senhor barbudo lá fora com a faca no pescoço de um carinha magrelo… Um vai matar o outro, você precisa chamar a polícia.

- Calma meu senhor – ela continuava tranquila mesmo após o meu relato eufórico e apavorado – O senhor barbudo é meu marido, ele é o dono daqui. E aquele jovem com quem ele está discutindo – estava, à esta altura ele já não discutiria mais com ninguém – é um vagabundinho drogrado que anda rondando nosso restaurante à um bom tempo. Ele rouba o pessoal aqui da volta pra comprar drogas. A prefeitura já internou ele algumas vezes, mas ele sempre foge e volta a roubar. Agora a pouco meu marido o viu ali pela frente e foi lá pegar ele com a boca na botija. Aquela Spin prata é sua?

 

Olhei para a direção que a velha apontava e vi meu carro com um dos vidros quebrado.

-Sim, meu Deus, o que aconteceu ali?

A velha me olhou com uma cara de “você é burro ou quê?” e pacientemente continuou:

- Pois é, o infeliz quebrou o vidro e ia roubar suas coisas, se não fosse meu marido intervir. O que ele vai fazer com o cara não me importo. Se a polícia não dá um jeito, nós damos.

 

Eu esperaria qualquer explicação para aquela briga, mas nunca esta. Me pegou de surpresa, o que também me fez pensar se queria ou não insistir em salvar o cara. Trabalhamos muito duro pra ter o que temos, e um vagabundo não tem o mínimo direito de tirar da gente o que conquistamos. Por outro lado, somos todos humanos e também não temos o direito de tirar a vida de nossos semelhantes. Por meio minuto, fiquei sem reação alguma. Olhei pra mesa em que estávamos e vi minha esposa abraçada em Pedro, enquanto André cuidava do caçula. A cortina ainda estava fechada, e queria que continuasse assim. De todas outras janelas, apenas três estavam com as cortinas abertas, e através delas nada pude ver do que se passava lá fora, o ângulo não me permitia. Fiquei mais um pouco parado, pensando em como agir. Voltei pra mesa lentamente, ainda sob o olhar dos curiosos que nada entenderam daquilo, e me sentei. Assim como os outros eu havia perdido a fome. Tomei um gole da minha água tônica e desceu quadrado. Tentei consolar minha esposa e meus filhos, mas sem muito sucesso. Nossa viagem tinha acabado.

 

Esperamos algum tempo em silêncio na mesa, rodeados apenas pelo barulho do tilintar de talheres nos pratos dos outros poucos clientes ali presentes. Em certo momento, observei que estavam todos de cabeça baixa, e minha curiosidade falou mais alto. Elevei minha mão lentamente até a cortina e a arrastei de leve para a esquerda, abrindo uma pequena fresta por onde eu podia ver o lado de fora. Foi um alívio perceber que não estavam mais ali nenhum dos dois homens, porém no chão havia uma mancha redonda de sangue seguida por um rastro vermelho que sumia pouco mais de um metro da origem. O corpo do jovem havia sido arrastado, sem dúvida alguma, para os fundos do restaurante, onde sabe-se lá o que o senhor ZZ Top ia fazer com ele. Soltei a cortina, olhei novamente para minha família e felizmente nenhum deles percebeu meu movimento. Desviei o olhar para a gerente no caixa e ela mantinha sua expressão tranquila de sempre. Parecia estar certa que o marido ia vencer a briga e acabar com a raça do jovem drogado. Tomei um último gole da minha bebida e logo em seguida sugeri à Judite que pegássemos logo a estrada, de preferência em direção à nossa casa em Porto Alegre. Ela aceitou na hora a minha proposta, concordando com a ação e a direção a ser tomada. Enquanto ela pegava o caçula no colo, eu peguei a comanda debaixo do saleiro e fomos até a sra. Maria de Lurdes para acertar o que devíamos. O almoço para 4 pessoas e meia não saiu caro, mas teria pago muito mais se pudesse excluir aquela cena horrível da minha cabeça. Agradecemos por tudo, apesar de não acharmos necessário fazer isso já que ela não se mostrou nem um pouco preocupada com nossa condição, e deixamos o restaurante. Não havia comentado ainda sobre o vidro quebrado com Judite, mas nem foi isto que chamou a sua atenção, muito menos a das crianças.

 

Nossos carro estava inclinado, como se estivesse com sobrepeso de um dos lados. Antes mesmo que os outros pudessem reparar no vidro quebrado, vimos o motivo da inclinação: os dois pneus esquerdos do veículos estavam furados. Fizemos a volta rapidamente e percebemos os rasgões, feitos à faca, em ambos. “Maldita Maria, poderia ter nos avisado que o vagabundo tinha feito isso também” – foi meu primeiro pensamento, porém aquele lado do carro era oposto ao seu ângulo de visão, portanto não tinha como ter percebido. Precisava dar um jeito naquilo e voltar logo pra casa, porém só se tem um estepe no carro, e eu tinha dois pneus rasgados. O vidro quebrado agora era o menor dos problemas, tanto que quando comentei o ocorrido com Judite, ela simplesmente deu os ombros como quem diz “tanto faz”. Voltei para a recepção do restaurante, e após esperar que os outros clientes pagassem suas contas (só então percebi que estavam todos juntos viajando, e que ao ver o estado de nervosismo de minha família acabaram ficando com medo e apressando a própria refeição) questionei à Maria se ela tinha o telefone de algum mecânico nas redondezas. Na mesma paciência (que já começara a me irritar naquele momento) de sempre, ela respondeu que o único mecânico confiável da cidade ficava à mais ou menos 2 quilômetros de distância e ele não tinha telefone para contato. Questionei pelos “não confiáveis” e ela não soube me informar nenhum número que eu pudesse ligar. Tentei acessar à internet pelo meu smartphone, mas nem cobertura eu tinha. De que adianta pagar quase 100 reais por mês na conta do meu pós-pago se quando preciso dele não posso usá-lo. Fui para a rua novamente, em encontro à minha família que ainda estava perplexa com a situação, e resumi minha conversa com a velha.

 

- Então, se não temos um mecânico, como voltamos pra casa?

- Calma, Judite, ela não disse que não tinha… ela disse que o único que conhecia não possuía telefone.

-Sim, muito bom, como vamos fazer para consertar os pneus então?

- Posso arriscar levar um pneu rolando até lá, afinal são só dois quilômetros pela via principal. Ele conserta, eu trago de volta, trocamos e vamos embora. Só preciso levar um pneu, já que o estepe resolve o problema do outro. – Tentei confortá-la, mas sabia que não estava adiantando…

- Tudo bem, mas isso vai levar um tempo.. Até lá, o que nós vamos fazer? – Ela me questionou olhando para os nossos 3 filhos.

- Fiquem por aqui, dentro do carro talvez. Não quero que vocês fiquem lá dentro do restaurante… Por mais nobre que fosse a sua intenção, o velho Billy é um assassino. E não tem mais ninguém dentro daquela merda de restaurante além da velha e talvez meia dúzia de funcionários.

- Sim, – confirmou Judite – eu vi quando os outros saíram apressados. E se formos todos com o carro assim mesmo até a mecânica, bem devagar? – os olhos e o coração procurando por uma saída para não ter que se separar de mim.

- Não temos como. O carro está carregado, e isso iria ferrar ainda mais nossa situação. Poderia inclusive entortar o eixo. Poderíamos ir devagar se deixássemos as bagagens, mas quem ia ficar com elas?

 

Judite pensou um pouco e acatou a ideia. Percebeu que não tínhamos alternativas à primeira opção, e foi isto que fizemos. Peguei o macaco, o triângulo (mesmo não sendo necessário) e o estepe, levantei o carro pelo lado esquerdo e troquei a roda da frente. Logo após removi a traseira, baixei o carro, dei um beijo em minha esposa e um beijinho em cada filho, e sai rolando o pneu pela via principal de Vacaria. Logo após uns 300 metros de rolagem (graças aos Deuses que não tinha sol, somente aquele nublado feio), a estrada fez uma curva e não mais consegui ver minha família parada na frente do restaurante. Fiquei tentando imaginar o que o velho teria feito com o corpo, e se pelo menos alguém além de nós saberia do ocorrido naquele início de tarde. Talvez aquele infeliz até merecesse morrer, já que tinha rasgado os pneus do meu carro possivelmente com a intenção de não me deixar sair do restaurante e dar queixa do roubo antes de ele estar bem longe dali. Já tinha percorrido, pelos meus cálculos, quase 2 terços do caminho quando me veio um daqueles estralos que temos de vez em quando, quando descobrimos algo completamente óbvio e tomamos um susto: quando a velha gerente do restaurante me questionou se o carro era meu, apontando o dedão para ele, ele estava reto, completamente reto. Sem pneus furados. Seja lá quem (ou o quê) que rasgou nossos pneus, tinha feito aquilo após nossa tentativa de negociação com a velha do caixa para chamar a polícia. O que quer que não quisesse que saíssemos do restaurante ainda estava lá, tão vivo quando eu, ou minha esposa, ou meus filhos… Meu Deus, e eles estão lá sozinhos! Me subiu um frio pela espinha que não cessou até eu mudar o rumo da minha caminhada e me por a correr. Naquele momento, não queria mais saber de pneu. Deixei-o atirado ali mesmo, na beira da estrada, e sai o mais rápido que pude de volta em direção ao restaurante. Mais de 30 minutos de caminhada em uma direção foram compensados por 8 minutos de corrida na direção oposta.

 

Ao chegar na frente do restaurante, procurei com os olhos de uma ponta a outra da estrutura de pedra, perto do carro, até através da porta de entrada do estabelecimento e nada de encontrar minha família. Foi quando percebi que o porta-malas estava aberto. As malas que ali estavam tinham sido reviradas, e algumas roupas estavam jogadas pelos paralelepípedos que cobriam a calçada e o estacionamento. Fui correndo (mais uma vez) em direção ao carro e ao chegar mais próximo, reparei pelo porta malas aberto um volume estranho sobre o banco do motorista. Um saco de lixo preto, com um papel grampeado sob o nó que tinha nas pontas. Contornei o carro e peguei o saco de lixo. Estava praticamente vazio, bem leve, mas ao desfazer o nó senti um pavor que não sei como descrever. Até hoje, quando lembro da cena, me dói fundo na alma e me arrependo amargamente de ter iniciado aquela viagem. Chorei, e chorei muito, mais que nunca na vida, ao perceber que haviam duas mãos ali dentro. Uma delas estava com uma aliança em ouro branco igual a minha, e a outra mão era pequena, do tamanho de uma mão de criança. O papel, um pouco rasgado pela minha infeliz afobação em abrir o saco de lixo, caiu sob meus pés. Recolhi-o do chão e, ainda limpando as lágrimas do meu rosto, leio a seguinte mensagem escrita com letras de quem aparentemente não tinha terminado o ensino fundamental: “Brigado por me ajudá, filhu duma puta”.

Não podia ser. Eu o vi com a faca no pescoço, à beira do seu próprio assassinato! Impossível aquele velho ter deixado o rapaz escapar daquela situação. E tem mais! Eu vi a poça de sangue no chão, bem como o caminho de sangue que se estendeu dela após o corpo ser arrastado. Então eu ouvi uma voz vindo do lado de fora da porta do restaurante:

 

- É incrível u que uma pancada no saco dum velho pode fazer, né? Ele imcima dimim nem percebeu quando eu levantei o joelho e acertei nas bola dele. O velho se jogou du meu lado di dor, eu subi imcima dele, tirei a faca dele e meti no bucho do barbudo. Duas vez. Ou foi trêis, nem lembro mais.

 

Escutei tudo tentando enxergar direito, pois as lágrimas tinham parado de correr, mas meus olhos ainda estavam embaçados, quando consegui focar no homem que tava ali e vi que era o magrelo drogado. Infeliz, vagabundo, cretino, desgraçado… Me passou mil e uma ofensas pela cabeça, mas ainda estava em estado de choque e não consegui falar nenhuma. Ele entrou rápido no restaurante, acho que esperando que eu fosse atrás dele. E eu fui. Ainda estava atordoado do choque em ver a mão da minha esposa e do meu filho mais novo cobertos de sangue dentro de um saco de lixo, e também estava com todo o cansaço acumulado da corrida até ali, mas nada me impediu de correr mais um pouco atrás do vagabundo. Quando entrei no restaurante, mais um choque. O corpo da sra. Maria e do seu marido, o Billy, estavam atirados um sobre o outro encostados no balcão do caixa. Ambos tinham perfurações de faca na altura do estômago, e o sangue que saia dos ferimentos da velha escorria e se juntava aos do velho e ambos desciam ao chão, formando uma poça enorme sob eles. O corpo da velha ainda dava pequenos pulinhos, como soluços, talvez reflexo do corpo tentando se recuperar, mas sabia que já estava morta. Ao olhar um pouco mais pra frente, o corpo de minha esposa e de Henrique jaziam um ao lado do outro, sentados à mesa como se esperassem o almoço tranquilo que não tiveram. Ambos com cortes de um lado a outro do pescoço, o sangue as vezes correndo, as vezes jorrando, as cabeças levemente inclinadas para frente e os olhares perdidos para sempre. Os braços sobre a mesa revelavam a ausência da mão esquerda de cada um. Atrás deles estavam sentados no chão Pedro e André, amarrados de costas e pelas mãos um no outro, desacordados. Estavam vivos, e isso era a única coisa que podia me confortar naquele momento, mas haviam machucados nas cabeças de ambos, como se tivessem levado uma espécie de paulada para que desmaiassem. A voz novamente veio até mim:

 

- Pena qui tu chegô cedo dimais. Achei qui ia demorá mais lá no borrachero. Bom, pelo menus vai pode observá os ultimo respiro dos teus filho.

 

Demorei pra perceber de onde vinha a voz, e quando o fiz já era tarde demais. O desgraçado estava escondido atrás da porta de entrada e antes que pudesse me virar, fui golpeado com um pedaço de madeira (possivelmente a mesma que acertou meus filhos) na parte de trás da cabeça. Cai no mesmo momento, mas obviamente não sou tão fácil de apagar quanto duas crianças. De qualquer forma, preferi ficar ali deitado por uma fração de segundo, o tempo suficiente para observar mesmo que por vulto o movimento do desgraçado. Ele tinha se posto ao meu lado, com o pedaço de madeira nas mãos (agora vi, era um pedaço de lenha que talvez servisse para abastecer o fogão da cozinha) e estava pronto para desferir outro golpe em mim quando agarrei-o pelo pé e o puxei com toda minha força. O filho da puta caiu com a bunda no chão bem do meu lado, e foi o suficiente para que eu me avançasse sobre ele. Como que por reflexo, sabendo que o infeliz gostava de chutar bolas, com minhas pernas fixei as pernas dele no chão, e com minhas mãos soquei o peito o mais forte que pude. O soco chegou a ecoar no restaurante vazio, e o infeliz caiu pra trás, não acreditando na velocidade da minha reação. Arranquei da mão dele o pedaço de lenha e sem pensar duas vezes afundei-o no crânio do desgraçado. O barulho dos ossos da face se partindo soou doce aos meus ouvidos. O infeliz se debateu algumas vezes, agora com metade do rosto para dentro da cabeça, o nariz achatado como uma ficha de poker e ambos olhos pendendo para fora das órbitas. Ainda estava vivo, não sei como, mas de certa forma isto até me deixou feliz, pois sabia que iria fazê-lo sofrer um pouco mais ainda. A lenha, agora coberta com mais sangue do que antes, me serviu de arma mais uma vez e novamente afundei-a no que sobrou do rosto daquele desgraçado. Ouvi agora os poucos dentes inteiros que ele tinha na boca se partirem. Ao tentar se mexer novamente, acabou engolindo alguns pedaços de ossos que tinham ficado soltos da mandíbula, e junto com eles os tocos de dentes. O infeliz se engasgou com os próprios restos banhados em sangue. Sai de cima dele (agora não havia mais necessidade de segurá-lo) e fiquei observando a agonia pela qual ele passava enquanto se debatia por falta de ar e dor. Os espasmos que tinha foram ficando mais fracos à medida de mais pedacinhos de dente e ossos entalavam na garganta, e dava pra ver o roxo que se tornara o que sobrou daquele rosto imundo por baixo do sangue. Foram os 60 segundos mais longos da vida dele, até que finalmente ele parou de se debater. O fim chegara pra ele, o mesmo fim que chegara para o dono do restaurante e a gerente. O mesmo fim que chegara para meu filho mais novo e minha esposa.

 

Fiz o possível que cabia a mim dentro da lei. Quando baixou a adrenalina, soltei os funcionários que gritavam trancados na cozinha e utilizei o telefone do restaurante para chamar a polícia. Atenderam mais que prontamente o chamado, mesmo sendo véspera de Natal. Ao chegar, os policiais me questionaram sobre tudo, e contei tudo que sabia para eles. Chamaram a ambulância para meus filhos e o IML para os corpos que ali estavam. Assim como para Roberto (este era o nome do filho da puta que estragou a minha vida), foi constatado que minha esposa e filho morreram por asfixia devido ao corte no pescoço. As mãos de ambos foram embaladas e levadas também para perícia. Uma psicóloga de Porto Alegre, ao ver a notícia do ocorrido no Jornal do Almoço no dia do Natal, se prontificou para ajudar minhas crianças a superar aquele trauma. Após algumas sessões, ela conseguiu a confissão deles de que foram obrigados por Roberto a assistir o assassinato da mãe e do irmão mais novo, e somente após isso levaram a pancada que os fez desmaiar. E quanto a mim, fui indiciado pelo pessoal dos Direitos Humanos por homicídio (afinal, Roberto matou por que era dependente químico e tinha problemas mentais, eu matei por que era um assassino sangue frio, segundo o promotor) e estou cumprindo pena de 5 anos na Penitenciária Estadual, com direito a visita dos meus filhos uma vez por semana e consultas com um psicólogo uma vez por mês.

 

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